Vias de administração e formulações da gestrinona
Nesta revisão
- Contexto
- Por ser o composto ativo em si — e não um pró-fármaco como o danazol —, a gestrinona pode ser administrada em doses baixas e não-diárias por via oral, vaginal ou parenteral (implante/pellet subdérmico).
- Objetivo
- Sintetizar a evidência primária sobre cada via e formulação, os únicos níveis séricos reais publicados, o gradiente de tolerância entre as vias e o estágio atual do pellet bioabsorvível.
- Achados
- A androgenicidade acompanha o nível sérico, não a via em si: por via vaginal o pico é ~5 vezes menor que por via oral na mesma dose (~9 vs ~45 ng/mL) (Coutinho et al., 1987), e a acne cai de 48% (oral) para 0–16% (vaginal) (Coutinho & Azadian-Boulanger, 1988) — embora a SHBG caia mesmo assim (Maia et al., 2014). O implante clássico de Silastic libera ~317 µg/dia de forma praticamente constante por 40–409 dias (Alvarez et al., 1978). O pellet bioabsorvível de 85 mg é objeto do GLADE — cujos resultados de Fase II, incluindo a primeira PK do pellet (meia-vida terminal aparente ~62 dias), já saíram como preprint, com a publicação revisada por pares ainda pendente (Malavasi et al., 2025).
- Conclusão
- Trocar a via muda o perfil de tolerância ao deslocar o nível sérico, não por qualquer proteção intrínseca; o pellet subdérmico bioabsorvível — a formulação hoje mais difundida off-label no Brasil — ainda carece de dados controlados de segurança e de farmacocinética.
Diferentemente do danazol e do linestrenol, que são pró-fármacos, a gestrinona é o composto ativo em si — propriedade que a torna eficaz em doses baixas, sem necessidade de administração diária, e viável por múltiplas vias (Coutinho et al., 1987).
Dessa característica farmacológica decorre o repertório de formulações descrito nesta revisão: comprimidos orais tomados duas a três vezes por semana, comprimidos ou cremes de aplicação vaginal e implantes subdérmicos de liberação prolongada (Coutinho et al., 1987). A escolha da via, porém, não é indiferente. Ela determina o nível sérico atingido e o momento do pico — e, com isso, o equilíbrio entre eficácia e efeitos androgênicos. É esse eixo — a via como determinante da exposição sistêmica, e não como propriedade protetora em si — que organiza as seções seguintes.
Convém, desde já, um aviso sobre a base de evidência. Nenhum dos estudos primários das vias mede meia-vida plasmática, clearance ou biodisponibilidade de forma direta. A única curva de nível sérico real da literatura é a de Coutinho, comparando oral e vaginal (Coutinho et al., 1987); a farmacocinética do implante clássico é inferida do fármaco residual na cápsula, não de dosagem no sangue (Alvarez et al., 1978); e a do pellet bioabsorvível moderno passou a ser descrita nos resultados de Fase II do GLADE (preprint) (Malavasi et al., 2025).
A via oral é a forma de referência e a única licenciada pela ANVISA. Na endometriose, mostrou-se eficaz na maioria das pacientes já com 2,5 mg duas vezes por semana, o esquema-padrão; casos mais severos usaram até 2,5 mg três vezes por semana ou 5 mg três vezes por semana (Coutinho et al., 1987). Os três esquemas foram equivalentes em eficácia, mas as doses maiores intensificaram os efeitos anabólico-androgênicos, sem ganho terapêutico correspondente — ou seja, mais dose comprou mais androgenicidade, não mais controle da doença (Coutinho et al., 1987).
A posologia intermitente é possível justamente porque a molécula é ativa e de eliminação relativamente lenta: administrada por via oral, a gestrinona é excretada de forma essencialmente conjugada na urina, com meia-vida sérica da ordem de 24 horas segundo o racional que fundamenta o GLADE (Malavasi et al., 2025). O custo dessa via é o perfil de efeitos que acompanha o nível sérico mais elevado: por via oral, seborreia (~76%), acne (~71%) e, em menor proporção, hirsutismo (~18%) e redução do volume mamário foram os achados dominantes (Coutinho et al., 1987). É contra esse padrão que as vias vaginal e parenteral são propostas como alternativas.
O racional farmacocinético da via vaginal é explícito e está ancorado no único dado sérico direto da literatura. Na Figura 1 de Coutinho, medindo a mesma dose de 5 mg, a via oral produz uma subida rápida até um pico de cerca de 45 ng/mL por volta de 5 horas, caindo a ~5 ng/mL em 24 horas; a via vaginal sobe lentamente até um pico de apenas ~9 ng/mL, também por volta de 5 horas — um pico cerca de cinco vezes menor e mais achatado (Coutinho et al., 1987). A razão é que a absorção pela mucosa vaginal evita a primeira passagem hepática, poupando o organismo do bolus concentrado que a via oral impõe ao fígado (Coutinho et al., 1987). O gráfico da Figura 1 reconstrói essas duas curvas.
Essa diferença de exposição traduz-se em tolerância. No ensaio randomizado de quatro grupos, a via vaginal igualou a oral na supressão de sintomas e nas taxas de gestação, porém com incidência significativamente menor de androgenicidade cutânea: acne/seborreia em 48% por via oral contra 0–16% nos grupos vaginais, com hirsutismo (15%) e rouquidão (7%) restritos ao grupo oral e menor ganho de peso pela via vaginal (Coutinho & Azadian-Boulanger, 1988). Um alerta de titulação acompanha o benefício: como o nível sérico é menor, a dose vaginal precisa ser maior que a oral — o esquema de 2,5 mg duas vezes por semana por via vaginal foi subterapêutico, com apenas 34% de amenorreia (Coutinho & Azadian-Boulanger, 1988).
A formulação moderna substituiu os comprimidos de excipiente de lactose por um creme de permeação transmucosa. Em estudo piloto aberto (n=15), gestrinona 5 mg em Pentravan três vezes por semana (associada a antioxidantes orais) reduziu o escore de dor de 9 para 0,5 em dois meses, com amenorreia em 100% das pacientes a partir do segundo mês (Maia et al., 2014). E aqui surge o paradoxo decisivo: não houve alteração significativa de lipídios nem de enzimas hepáticas — poupados pela via não-oral —, mas a SHBG despencou de 55 para 9 nmol/L (p=0,03), sinal de que a testosterona livre sobe mesmo por via vaginal (Maia et al., 2014). O dado dissocia o efeito lipídico/hepático (que a via poupa) do efeito sobre a SHBG (que persiste): a marca androgênica da molécula não depende apenas da primeira passagem hepática.
A via vaginal poupa o perfil lipídico e reduz a acne — mas a SHBG cai mesmo assim, de 55 para 9 nmol/L. A assinatura androgênica da gestrinona não depende só da primeira passagem hepática.
A partir de Maia et al., 2014Cabe registrar que tanto o creme quanto os comprimidos vaginais são preparações manipuladas de uso off-label, já que a gestrinona é licenciada no Brasil apenas na apresentação oral (Maia et al., 2014).
Reunindo as observações das três vias, emerge o princípio organizador do capítulo. Os efeitos anabólico-androgênicos da gestrinona seguem um gradiente ordenado: mais intensos por via oral, intermediários por implante e menores por via vaginal (Coutinho et al., 1987). O ponto crucial é o mecanismo: esse gradiente acompanha a altura do nível sanguíneo e do pico, e não uma propriedade protetora intrínseca de cada via. Dito de outro modo — a androgenicidade segue o nível sérico, não a via. A via só importa porque desloca a curva de exposição.
Essa leitura unifica os dados dispersos: a via oral, de pico alto (~45 ng/mL), concentra a androgenicidade (acne ~48%, hirsutismo, rouquidão) (Coutinho & Azadian-Boulanger, 1988); o implante, de liberação baixa e constante, situa-se em posição intermediária (Coutinho et al., 1987); e a via vaginal, de pico baixo (~9 ng/mL), minimiza os efeitos cutâneos (Coutinho et al., 1987). A ressalva da SHBG (§3) apenas refina o princípio, sem contradizê-lo: o pico sistêmico governa a androgenicidade cutânea e lipídica, mas o efeito sobre a proteína carreadora persiste mesmo em exposições baixas. A Tabela 1 organiza as quatro formulações segundo nível sérico, androgenicidade e maturidade da evidência.
| Via / formulação | Nível sérico | Androgenicidade | Status de evidência |
|---|---|---|---|
| Oral (comprimido 2,5 mg) | Mais alto; pico ~45 ng/mL a ~5 h (1ª passagem hepática) | Maior (acne/seborreia ~48%, hirsutismo, rouquidão) | Via licenciada pela ANVISA; ensaios comparativos históricos |
| Implante SC clássico (Silastic) | Baixo e constante (~317 µg/dia liberados) | Intermediária (menor que oral, maior que vaginal) | PK in vivo histórica (Alvarez 1978); casuística de endometriose; não-reabsorvível |
| Vaginal (comprimido-lactose ou creme Pentravan) | Mais baixo; pico ~9 ng/mL a ~5 h (evita 1ª passagem) | Menor (acne 0–16%), mas SHBG cai mesmo assim | Ensaio randomizado (1988) e piloto aberto (2014); uso off-label |
| Pellet SC bioabsorvível (85 mg) | Ainda não caracterizado (PK em andamento) | Desfecho a determinar (GLADE) | ⚠ Apenas protocolo publicado; resultados não divulgados |
O único dado quantitativo e histórico de liberação in vivo do implante de gestrinona vem de um ensaio contraceptivo randomizado da década de 1970. A formulação consistia em seis cápsulas de Silastic (polidimetilsiloxano, Dow Corning) — cerca de 34 mm de comprimento, com aproximadamente 30 mg de cristais secos do fármaco cada (30,1 ± 1,2 mg), totalizando ~180 mg — inseridas por trocarte de calibre 11 sob a pele da face ventral do antebraço (Alvarez et al., 1978).
Ao remover as cápsulas e quantificar por absorção UV o esteroide residual, os autores calcularam uma liberação praticamente constante — de ordem-zero — ao longo de todo o tempo de residência, de 40 a 409 dias, a cerca de 17,6 µg/cm/dia, o que corresponde a uma dose média de aproximadamente 317 µg/dia por paciente (extremos de 239–408 µg/dia) (Alvarez et al., 1978). Clinicamente, o implante induziu oligomenorreia ou amenorreia em 80–90% das usuárias, com androgenicidade branda (acne e prurido dose-dependentes, sem hirsutismo nesta coorte) e elevações de transaminases apenas marginais (Alvarez et al., 1978). O recrutamento, contudo, foi interrompido precocemente por precaução, diante de relatos de transaminases elevadas em coortes chilenas e de androgenização em finlandesas sob o mesmo regime (Alvarez et al., 1978).
A mesma tecnologia de Silastic foi depois aplicada à endometriose: em 70 pacientes acompanhadas ao longo de cinco anos, a amenorreia foi o efeito dominante, o spotting ocorreu em menos de 5% e a tolerância androgênica situou-se em posição intermediária entre a via oral e a vaginal (Coutinho et al., 1987). Duas ressalvas são decisivas para interpretar esse precedente. Primeira: a formulação de Silastic é não-reabsorvível, exigindo remoção cirúrgica ao fim do uso — diferença fundamental face ao pellet bioabsorvível moderno. Segunda: a liberação de ~317 µg/dia foi inferida do esteroide residual na cápsula, não de dosagem sérica — não há, portanto, Cmax, AUC ou meia-vida plasmáticos medidos para a via subdérmica (Alvarez et al., 1978).
O salto tecnológico face ao Silastic é o pellet subdérmico bioabsorvível — a formulação hoje mais difundida no Brasil, que dispensa a remoção cirúrgica. Sua avaliação controlada é o objeto do estudo GLADE. É essencial deixar absolutamente explícito que a publicação disponível é apenas o protocolo (racional e desenho): não há um único resultado clínico, de segurança ou de farmacocinética reportado (Malavasi et al., 2025).
O desenho previsto é um ensaio randomizado, multicêntrico, duplo-cego e controlado por placebo (fase II), com 100 mulheres com endometriose infiltrativa profunda e dor refratária, em sete centros no Brasil. Compara-se um pellet bioabsorvível de gestrinona 85 mg contra um pellet placebo, na proporção 1:1, inserido sob a pele da nádega; ambos os braços recebem também um SIU de levonorgestrel como contracepção, ao longo de seis meses (Malavasi et al., 2025). O desfecho primário é de segurança — o percentual de pacientes sem eventos adversos sérios em seis meses —, o que reflete diretamente a necessidade de dados controlados para a via mais usada off-label no país (Malavasi et al., 2025).
Uma fase aberta de farmacocinética (EXT-PK, n=15) foi desenhada para finalmente caracterizar AUC, Cmax, Tmax e meia-vida do pellet por LC-MS/MS (LOQ 0,05 ng/mL), com coletas seriadas até 168 dias (Malavasi et al., 2025). Até a publicação do protocolo, porém, o próprio artigo registra que a análise laboratorial dos níveis plasmáticos ainda estava em andamento — de modo que o dado mais aguardado, a meia-vida/PK do pellet, foi então divulgada nos resultados de Fase II (preprint): meia-vida terminal aparente ~1491 h (~62 dias), com pico sérico na semana 8 (Malavasi et al., 2025b) — restando pendente a publicação revisada por pares (Malavasi et al., 2025).
O GLADE ainda não tem resultados publicados
A única publicação do GLADE disponível é o racional e desenho do estudo (um protocolo). Foram divulgados a hipótese, os critérios de elegibilidade e os desfechos planejados — mas nenhum resultado de eficácia, de segurança ou de farmacocinética. Na data da publicação, o próprio artigo declara que a dosagem plasmática de gestrinona estava "em andamento" (undergoing).
Consequência prática: a caracterização de AUC, Cmax, Tmax e meia-vida do pellet bioabsorvível de 85 mg teve sua primeira caracterização nos resultados de Fase II do GLADE (preprint; meia-vida terminal aparente ~62 dias), embora a confirmação por publicação revisada por pares ainda seja aguardada.
Reunindo as peças: por ser o composto ativo em si, a gestrinona admite as vias oral, vaginal e parenteral em doses baixas e não-diárias (Coutinho et al., 1987). O que muda entre elas não é uma proteção intrínseca da via, mas o nível sérico que cada uma produz — pico ~45 ng/mL na oral contra ~9 ng/mL na vaginal, na mesma dose (Coutinho et al., 1987) — daí o gradiente de tolerância oral > implante > vaginal. A via vaginal iguala a oral em eficácia com muito menos androgenicidade cutânea (acne 48% vs 0–16%), embora a queda de SHBG e o aumento de testosterona livre ocorram mesmo assim (Coutinho & Azadian-Boulanger, 1988) (Maia et al., 2014).
O implante subdérmico tem um único precedente quantitativo de liberação — o Silastic não-reabsorvível de Alvarez, a ~317 µg/dia constantes por 40–409 dias (Alvarez et al., 1978). Mas a formulação que hoje domina o mercado estético e ginecológico brasileiro é outra: o pellet bioabsorvível, uma via cuja segurança e farmacocinética ainda não foram validadas por dados publicados. O GLADE, que se propõe a fazê-lo, é por enquanto apenas um protocolo (Malavasi et al., 2025). Enquadrar corretamente esse uso off-label — amplamente difundido, mas ainda sem validação controlada da via — é a principal ressalva prática desta revisão.
Referências
Ordenadas por autor · clique na citação no texto para chegar aqui
- Alvarez F, Robertson DN, Montes de Oca V, Sivin I, Brache V, Faundes A. (1978). Comparative clinical trial of the progestins R-2323 and levonorgestrel administered by subdermal implants. Contraception. 18(2):151–162. PubMed·DOI
- Coutinho EM, Gonçalves MT, Azadian-Boulanger G, Silva AR. (1987). Endometriosis therapy with gestrinone by oral, vaginal or parenteral administration. Contrib Gynecol Obstet. 16:227–235. PubMed
- Coutinho EM, Azadian-Boulanger G. (1988). Treatment of endometriosis by vaginal administration of gestrinone. Fertil Steril. 49(3):418–422. PubMed
- Maia H Jr, Haddad C, Moura Hirsch MC, Saback W, Casoy J. (2014). Treatment of refractory endometriosis-related pain with vaginal gestrinone in Pentravan associated with Pinus pinaster extract and resveratrol: a preliminary study. Gynecol Obstet (Sunnyvale). 4(9):246. DOI
- Malavasi A, Ribeiro CM, Agati LB, et al. (2025). Rationale and design of the GLADE study: a randomized, multicenter, double-blind, placebo-controlled trial evaluating the safety and efficacy of gestrinone subdermal bioabsorbable pellet in endometriosis-related pelvic pain [protocolo]. Ann Med. 57(1):2527352. PubMed·DOI
- Malavasi ALLO, Ribeiro CM, Ramacciotti E, et al. (2025b). Gestrinone subdermal bioabsorbable implant for the treatment of endometriosis-associated pelvic pain: a phase II, safety randomised clinical trial. SSRN (preprint). SSRN