Síntese de evidência: revisões sistemáticas, meta-análises, comparadores e diretrizes
Nesta revisão
- Contexto
- Acima dos ensaios individuais — quase todos pequenos, antigos e de via oral — existe hoje uma camada de revisões sistemáticas, meta-análises pareadas e em rede (NMA) e uma diretriz internacional que permite ler a gestrinona pelo agregado, e não caso a caso.
- Objetivo
- Sintetizar essa camada superior: a única meta-análise dedicada ao fármaco, as redes de eficácia comparativa de 2023–2025, o sinal ósseo das revisões Cochrane, a revisão sistemática de segurança, o mapa dos comparadores e o posicionamento da diretriz ESHRE 2022.
- Achados
- A meta-análise dedicada (Pinto 2023, 16 estudos, 1.286 mulheres) mostra que os únicos eventos adversos que diferem dos comparadores são acne (OR 1,58; IC 1,06–2,36) e seborreia (OR 3,11; IC 1,95–4,93) — assinatura androgênica —, enquanto o ganho de peso em 44% refuta o uso para emagrecimento. Na NMA mais recente de dor (Kou 2025), a gestrinona é a 1.ª opção para dor pélvica não-menstrual (SUCRA 98,9%; SMD −1,93 vs. placebo), superando onze intervenções, mas na recorrência pós-cirúrgica fica atrás de dienogeste e LNG-IUS. Nas revisões ósseas, a gestrinona poupa/ganha osso (+0,88%/+2,06%) enquanto o agonista de GnRH o consome (−3%).
- Conclusão
- A gestrinona é reconhecida como eficaz — inclusive pela ESHRE 2022 —, mas a evidência é de baixa qualidade (⊕⊕○○) e o grupo europeu decidiu não incluir os antiprogestogênios nas recomendações acionáveis. A leitura crítica exige separar o que a evidência mostra do que o conflito de interesse de parte da literatura sugere.
A evidência primária da gestrinona é, em sua quase totalidade, um punhado de ensaios pequenos, majoritariamente dos anos 1980–90, de via oral e sem braço de placebo. Este capítulo fica acima deles: reúne o que dizem as revisões sistemáticas, as meta-análises pareadas e em rede e a única diretriz internacional que a menciona — a camada que transforma ensaios isolados em uma conclusão.
Vale fixar de saída uma limitação estrutural, que atravessa tudo o que se segue: não existe RCT de gestrinona contra placebo na dor da endometriose. As revisões Cochrane são explícitas — "não houve ensaios randomizados de gestrinona comparada a nenhum tratamento ou placebo" (Brown et al., 2012). Todo o edifício meta-analítico compara a gestrinona a comparadores ativos (danazol, leuprolida) ou a sintetiza descritivamente. Isso rebaixa a certeza GRADE de forma sistemática e é o motivo pelo qual a diretriz europeia, mais adiante, trata a gestrinona como "eficaz" mas de "baixa qualidade de evidência".
Há, ainda, uma reclassificação de nomenclatura que importa. A Cochrane de 2012 rotula a gestrinona como o "único antiprogestágeno" das revisões de dor (Brown et al., 2012); já a Cochrane de 2017 a reagrupa entre os moduladores do receptor de progesterona (PRM), ao lado de mifepristona, ulipristal e asoprisnil (Fu et al., 2017). Uma mesma molécula, duas caixas taxonômicas — detalhe que ajuda a entender por que ela aparece e desaparece de listas de recomendação conforme a categoria escolhida. A partir daqui, percorremos a pirâmide de cima para baixo: a peça dedicada, as redes de eficácia, o osso, a segurança agregada, os comparadores e a diretriz.
A peça central de toda a síntese é a única meta-análise dedicada exclusivamente à gestrinona: de Souza Pinto e colaboradores partiram de 3.269 referências e chegaram a 16 estudos e 1.286 mulheres (Pinto et al., 2023). É a fotografia mais completa do fármaco no agregado — e a que melhor delimita sua assinatura de segurança.
Um ponto metodológico define o alcance do trabalho: só os eventos adversos puderam ser meta-analisados (8 estudos, 751 participantes, 58% do total). Os desfechos de eficácia (dismenorreia, dor pélvica, dispareunia) vinham em figuras e dados incompletos, e os autores originais não responderam aos pedidos — de modo que a eficácia foi sintetizada apenas qualitativamente (Pinto et al., 2023). Ainda assim, a síntese quantitativa dos eventos adversos produziu o achado mais robusto da literatura.
O forest plot dos eventos adversos
Dos sete eventos adversos meta-analisados, apenas dois diferem significativamente dos comparadores — e ambos são androgênicos: acne (OR 1,58; IC95% 1,06–2,36) e seborreia (OR 3,11; IC95% 1,95–4,93), os dois com heterogeneidade nula (I²=0%) e certeza GRADE moderada. Todos os demais — náusea, cefaleia, fogachos, sangramento e ganho de peso — têm intervalo de confiança cruzando a unidade, ou seja, não diferem dos comparadores (Pinto et al., 2023).
A refutação do emagrecimento
O achado mais citável em termos de saúde pública nasce de um número bruto: o ganho de peso foi mais prevalente com gestrinona (44%) do que com os comparadores (22,5%), e a própria meta-análise conclui que "o uso da gestrinona para fins de perda de peso não parece correto, e a gestrinona não deve ser prescrita para esse fim" (Pinto et al., 2023). É munição direta contra o uso estético off-label: a evidência agregada mostra que a molécula tende a engordar, não a emagrecer.
A meta-análise também registra a farmacologia que justifica o interesse por vias não-orais: a gestrinona é derivado androgênico da 19-nortestosterona, de ação central sobre LH e FSH, com biodisponibilidade oral de apenas 30% — "pode ser mal tolerada em uso oral prolongado" (Pinto et al., 2023). É o racional que sustenta o implante subcutâneo e o programa GLADE, tratados em capítulo próprio. Na conclusão, os autores resumem: a gestrinona "parece segura e pode ter algumas vantagens de eficácia sobre o danazol", ressalvando que "a qualidade da evidência é geralmente muito baixa ou incerta".
Se a meta-análise dedicada resolve a segurança, a eficácia comparativa ficou por conta das meta-análises em rede (NMA) — o método que permite ranquear intervenções que nunca foram testadas frente a frente, usando um comparador comum. Aqui a gestrinona tem dois retratos aparentemente contraditórios, que na verdade dependem do desfecho.
O topo: dor pélvica não-menstrual (Kou 2025)
A NMA mais recente e ampla sobre dor — 31 RCTs, 8.665 pacientes, 21 intervenções — traz o resultado mais forte e favorável já publicado para a gestrinona. Na rede de dor pélvica não-menstrual, ela foi a intervenção mais eficaz de todas, com SUCRA de 98,9%, superando de forma significativa onze comparadores — incluindo leuprolida, elagolix com add-back, relugolix e os antagonistas de GnRH modernos. Frente ao placebo, a magnitude foi a maior da rede: SMD −1,93 (IC95% −2,53 a −1,33) (Kou et al., 2025). Na dispareunia, a gestrinona ficou em 2.º lugar (atrás apenas da combinação vitamina C + vitamina E).
Os próprios autores contextualizam o mecanismo: "a gestrinona atua inibindo a secreção de gonadotrofinas hipofisárias, reduzindo os níveis de estrogênio no corpo" (Kou et al., 2025). A ressalva metodológica é honesta e importante: o nó da gestrinona repousa em poucos ensaios (por comparação, muitas vezes um único estudo), o que alarga os intervalos e obriga a ler o SUCRA 98,9% como um sinal promissor — não como prova definitiva. A rede também não incorpora dados de segurança.
O meio da tabela: recorrência pós-cirúrgica (Zheng 2023)
O retrato muda quando o desfecho é a recorrência após cirurgia preservadora de fertilidade. Na NMA de Zheng e colaboradores (44 RCTs, 4.576 pacientes, 7 fármacos), a gestrinona é claramente ativa e eficaz — taxa de eficácia vs. placebo OR 2,83 (IC95% 1,23–6,49) e recorrência OR 0,46 (IC95% 0,26–0,79) — porém não é a líder. O dienogeste supera a gestrinona tanto em recorrência (OR 0,40; IC95% 0,18–0,93) quanto em gravidez (OR 2,60; IC95% 1,45–4,66), e a gestrinona recidiva mais que o LNG-IUS (OR 2,22; IC95% 1,13–4,34) (Zheng et al., 2023). O ranking de recorrência é encabeçado por dienogeste e LNG-IUS, com a gestrinona no meio do pelotão.
Duas redes pós-operatórias mais recentes confirmam o padrão de sub-representação. Na NMA bayesiana de Xiong e colaboradores, a gestrinona tem o segundo menor point-estimate de recorrência (OR 0,09), mas o intervalo cruza a unidade (IC95% 0–1,4) e o dado vem de um único RCT chinês — só o LNG-IUS atingiu significância (Xiong et al., 2026). E, na adenomiose tratada com HIFU, a combinação HIFU + gestrinona foi a única a reduzir significativamente o volume uterino aos 12 meses (SMD −0,66; IC95% −1,3 a −0,028) (Sun et al., 2026) — um nicho de eficácia real, ainda que sobre base escassa.
Dependendo do desfecho, a gestrinona é a 1.ª (dor não-menstrual, Kou 2025) ou fica atrás de dienogeste e LNG-IUS (recorrência, Zheng 2023). O agregado descreve um fármaco eficaz, mas sub-representado nas redes modernas.
Síntese de Kou 2025, Zheng 2023, Xiong 2026 e Sun 2026O território em que as revisões são mais unânimes é o esqueleto. Aqui a gestrinona não apenas não prejudica o osso — ela o poupa ou ganha, num contraste direto com o agonista de GnRH, cujo efeito hipoestrogênico consome a densidade mineral óssea (DMO).
A revisão Cochrane fundadora sobre DMO agregou a gestrinona ao danazol na categoria de comparadores protetores: "tanto o danazol/gestrinona quanto o add-back de progesterona + estrogênio protegem contra a redução de densidade mineral óssea causada pelos análogos de GnRH" (Sagsveen et al., 2003). O ponto decisivo é a análise de sensibilidade que isola a gestrinona (removendo o único braço com o fármaco, Vercellini 1996): no seguimento, o efeito permaneceu significativo, com SMD −3,13 (IC95% −5,04 a −1,23) a favor do braço danazol/gestrinona — ou seja, a gestrinona comporta-se como o danazol, poupando osso (Sagsveen et al., 2003). A revisão contextualiza a relevância clínica: "uma redução de um desvio-padrão na massa óssea associa-se a um aumento de cinquenta a cem por cento na incidência de fraturas".
Os números duros vêm de duas sínteses posteriores. Na revisão sistemática de Jeng e colaboradores, a DMO lombar aumentou com gestrinona (+0,88% aos 6 meses; +2,06% aos 12 meses) e caiu com leuprolida (−3,04% aos 6 meses; −1,08% aos 12 meses) (Jeng et al., 2014). A Cochrane de análogos de GnRH de 2023 quantificou a mesma diferença de forma pareada: a mudança percentual espinhal aos 12 meses foi MD −5,10 (IC95% −7,39 a −2,81; P<0,0001) a favor da gestrinona, que ainda cursou com menos fogachos (RR 2,29 a seu favor) e controle de dor comparável (Veth et al., 2023).
A leitura mecanística é coerente com a farmacologia androgênica da molécula: o componente testosterona-símile suprime diretamente a reabsorção óssea. É o mesmo eixo que gera a acne e a seborreia da §2 — a androgenicidade que penaliza a pele protege o osso. A ressalva permanente: toda a evidência óssea da gestrinona repousa em um ou dois RCTs pequenos (Vercellini/GISG 1996), com certeza "muito baixa" (Veth et al., 2023).
Se a Pinto 2023 mede o excesso de eventos frente a comparadores, a revisão sistemática de Fagundes e colaboradores mede a frequência absoluta — quantas usuárias, no total, apresentam cada evento. É a maior compilação de segurança já feita: 32 estudos únicos, 3.745 mulheres (2.403 receberam gestrinona), publicados entre 1975 e 2018 em 14 países, com forte concentração brasileira (n=7) (Fagundes et al., 2025).
Os eventos mais reportados foram, no resumo dos autores, "amenorreia (41,4% dos casos), acne e seborreia (42,7% dos relatos), redução de libido (26,5%) e fogachos (24,2%)" (Fagundes et al., 2025). Dois desses números merecem tradução clínica: a amenorreia (~41%) costuma ser um objetivo terapêutico, não um dano; a elevação de transaminases (15,1%), por outro lado, é um sinal hepático que exige vigilância. A tabela abaixo condensa a assinatura quantitativa.
| Evento | Frequência (n/N) | Leitura clínica |
|---|---|---|
| Acne / seborreia | 42,7% (111/260) | Assinatura androgênica; corrobora a Pinto 2023 |
| Amenorreia | 41,4% (104/251) | Em geral objetivo terapêutico, não dano |
| Ganho de peso | ~40% dos estudos (0,9–8 kg) | Refuta o uso "para emagrecer" |
| Libido diminuída | 26,5% (61/230) | Contraponto à alegação de aumento de libido |
| Fogachos | 24,6% (85/346) | Menos que com agonista de GnRH |
| Redução das mamas | 23,7% (8 ensaios) | Efeito antiestrogênico/androgênico |
| Transaminases elevadas | 15,1% (4 ensaios) | Sinal hepático — monitorizar |
| Hirsutismo | 11,4% (118/1037) | Androgênico, dose-dependente |
A revisão traz três achados de enquadramento que elevam seu peso. Primeiro, um forte gancho de saúde pública: "o uso off-label da gestrinona para fins estéticos carece de suporte científico e representa um risco significativo à saúde" — e, sobre o emagrecimento, "nenhum estudo avaliou especificamente seu uso off-label, apesar da utilização comum para fins como perda de peso — uma aplicação contradita por achados que indicam potencial ganho de peso" (Fagundes et al., 2025). Segundo, o contexto regulatório: a gestrinona é listada pela WADA como agente anabólico proibido, e no Brasil a Anvisa proibiu a propaganda ao público e o CFM emitiu a Resolução n.º 2.333/23 sobre o uso estético. Terceiro, uma ressalva de fragilidade: 68% dos RCTs foram de alto risco de viés, e todos os dados provêm de mulheres — não há um único estudo em homens (Fagundes et al., 2025).
Nenhuma síntese de evidência é útil sem o mapa dos comparadores — porque a gestrinona quase nunca foi testada contra placebo, e sim contra outros fármacos. As revisões desenham quatro vizinhos: o danazol (o parente androgênico direto), o agonista de GnRH (o vizinho do osso), e a dupla dienogeste / LNG-IUS (a referência terapêutica atual).
O danazol é o comparador histórico e o mais próximo em mecanismo: também derivado da 17α-etiniltestosterona, também androgênico. As revisões são consistentes em que a gestrinona iguala o danazol no alívio da dor — "não houve evidência de benefício dos antiprogestágenos (gestrinona) comparados ao danazol" (Brown et al., 2012) — com a vantagem posológica de duas doses semanais contra várias diárias, e comodidade que se traduz em adesão de ~89% (Pinto et al., 2023). O agonista de GnRH (leuprolida, goserelina) é igualmente eficaz na dor, mas paga o preço ósseo e vasomotor descrito na §4. E a dupla dienogeste / LNG-IUS desponta como a referência moderna: nas redes pós-cirúrgicas, supera a gestrinona em recorrência e gravidez (Zheng et al., 2023), além de ser a classe que a ESHRE efetivamente recomenda. A revisão narrativa de Ezzat sintetiza o consenso de fundo: "a gestrinona mostrou-se tão eficaz quanto o danazol e os análogos de GnRH", mas "nenhuma [terapia] parece marcadamente melhor que outra" (Ezzat, 2017).
| Fármaco | Eficácia na dor | Osso (DMO) | Lipídio | Recomendação (ESHRE 2022) |
|---|---|---|---|---|
| Gestrinona | 1.ª para dor não-menstrual (SUCRA 98,9%); = danazol/leuprolida | Poupa/ganha (+0,88%/+2,06%) | ↓ colesterol e ↓ TG (perfil androgênico, controverso) | Reconhecida eficaz, mas sem recomendação própria |
| Danazol | ≈ gestrinona (referência histórica) | Poupa (androgênico) | ↓ HDL (desfavorável) | Ativamente não recomendado |
| Agonista de GnRH | Eficaz | Perde (−3% em 6 m) | Neutro/variável | 2.ª linha, com add-back (⊕⊕○○, forte) |
| Dienogeste | Superior à gestrinona em recorrência/gravidez | Perda mínima (+0,25% vs. −4% do GnRH) | Favorável | Recomendado — progestágeno (⊕⊕○○, forte) |
| LNG-IUS / implante ENG | Líder em recorrência (Zheng, Xiong) | Neutro (ação local) | Neutro | Recomendado (⊕⊕⊕○, forte) |
Síntese de Kou 2025, Zheng 2023, Jeng 2014, Ezzat 2017 e ESHRE 2022. O efeito lipídico da gestrinona é discutido no capítulo metabólico.
No topo da pirâmide está a diretriz. A referência internacional atual é a da European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE) de 2022 — 109 recomendações, metodologia GRADE —, e o modo como ela trata a gestrinona é a chave para entender a distância entre "eficaz" e "recomendada" (Becker et al., 2022).
A gestrinona aparece no capítulo dos progestágenos e antiprogestogênios, ancorada na Cochrane de 2012. A diretriz é explícita quanto à eficácia: "tanto os progestágenos contínuos quanto a gestrinona contínua são terapias eficazes para o tratamento dos sintomas dolorosos associados à endometriose" — ressalvando, na mesma frase, a "escassez de dados e a ausência de estudos controlados por placebo" (Becker et al., 2022). Reconhece também a assinatura androgênica: "hirsutismo e seborreia (pele oleosa) foram relatados com o uso de antiprogestogênios (gestrinona)".
E então vem a decisão crucial. Apesar de reconhecê-la eficaz, o grupo de desenvolvimento não deu à gestrinona uma recomendação própria. A justificativa é textual: "o GDG não recomenda o danazol como tratamento para a dor associada à endometriose e considerou não mais relevante incluir os antiprogestogênios nas recomendações" (Becker et al., 2022). A tabela de mudanças da versão 2022 confirma: "danazol e antiprogestogênios ... não mais incluídos nas recomendações, mas ainda cobertos no texto". A recomendação forte migrou para os progestágenos (⊕⊕○○) e para o LNG-IUS e o implante de etonogestrel (⊕⊕⊕○).
O que a ESHRE 2022 diz — e o que não diz
Diz: a gestrinona é o único antiprogestogênio avaliado e é uma "terapia eficaz para os sintomas dolorosos" da endometriose. Reconhece o efeito androgênico (hirsutismo, seborreia). A qualidade da base de evidência é baixa (⊕⊕○○), herdada da Cochrane de 2012, sem ensaios controlados por placebo.
Não diz: não dá à gestrinona nenhuma recomendação acionável de 1.ª ou 2.ª linha. O GDG decidiu que os antiprogestogênios "não são mais relevantes" para figurar entre as recomendações — o mesmo destino do danazol (este, ativamente desaconselhado). A gestrinona sobrevive apenas no corpo do texto, não nas 109 recomendações formais.
O contraste: o resultado é uma molécula reconhecidamente eficaz porém deliberadamente excluída das recomendações europeias — e simultaneamente indisponível nos EUA (Ezzat, 2017), ao passo que no Brasil o implante de gestrinona é usado de forma off-label em larga escala. É a tensão central de todo o dossiê de evidência.
Uma síntese honesta da evidência precisa incluir uma variável que raramente aparece nos forest plots: quem financiou o quê. A literatura da gestrinona divide-se, nesse aspecto, em dois campos que convém não confundir.
De um lado, a revisão narrativa de Renke e colaboradores — a peça mais entusiasta, que mapeia usos off-label em menopausa, lipedema, sarcopenia e disforia pré-menstrual — é declaradamente financiada pela Elmeco Hormonal Implants, fabricante de implantes, sendo o primeiro autor um "research physician" da empresa; muitas de suas afirmações apoiam-se em experiência clínica dos próprios autores, não em RCTs (Renke et al., 2024). Um caso análogo, mais sutil, é a própria meta-análise dedicada: declara "nenhum conflito de interesse", mas os autores têm afiliações a empresas de biodelivery/implante (Iaso Biodelivery, Bio Meds) — uma tensão que vale registrar ao citar (Pinto et al., 2023).
De outro lado, a revisão sistemática de segurança de Fagundes — a mais crítica ao uso estético — declara ausência de financiamento externo e ausência de conflito de interesse (Fagundes et al., 2025). Não é coincidência que a literatura sem conflito seja a mais cautelosa quanto ao uso estético, e a literatura financiada por fabricantes seja a mais expansiva quanto às indicações. O leitor não precisa presumir má-fé para reconhecer que a direção do viés é previsível.
Conflito de interesse na literatura da gestrinona
Financiada por fabricante — Renke 2024 (Elmeco Hormonal Implants; autor é médico-pesquisador da empresa): revisão narrativa, expansiva nas indicações off-label, muitas afirmações baseadas em experiência clínica, sem meta-análise nem avaliação de risco de viés. Pinto 2023 declara "sem conflito", mas tem afiliações a empresas de implante — cautela ao citar.
Sem conflito declarado — Fagundes 2025 (Universidade Federal do Paraná, sem financiamento externo): revisão sistemática, focada em segurança, crítica ao uso estético off-label. Kou 2025 e as Cochrane igualmente sem financiamento de indústria.
Regra prática: pese cada afirmação pela força do desenho e pela independência da fonte. Uma alegação de indicação nova, vinda de revisão narrativa financiada, exige mais ceticismo do que um sinal de segurança vindo de revisão sistemática independente.
Síntese
Lida de cima para baixo, a pirâmide de evidência converge em quatro afirmações defensáveis. Um, a gestrinona é eficaz na dor da endometriose — igual ao danazol e ao agonista de GnRH, e a 1.ª colocada para dor não-menstrual na NMA mais recente (Kou et al., 2025), ainda que sub-representada nas redes de recorrência, onde dienogeste e LNG-IUS lideram (Zheng et al., 2023). Dois, seu perfil de segurança é dominado por eventos androgênicos — acne e seborreia são os únicos eventos estatisticamente mais frequentes que os comparadores (Pinto et al., 2023) —, com a compensação de poupar osso onde o GnRH o consome (Veth et al., 2023). Três, a evidência agregada refuta o uso para emagrecimento: a molécula tende a engordar (44% de ganho de peso), não a emagrecer (Pinto et al., 2023)(Fagundes et al., 2025). Quatro, apesar de tudo isso, a qualidade da evidência é baixa — sem RCT contra placebo, com ensaios pequenos e antigos —, o que levou a ESHRE 2022 a reconhecê-la eficaz mas a excluí-la das recomendações (Becker et al., 2022).
É exatamente essa a lacuna que um ensaio moderno, randomizado, controlado por placebo e com o implante subcutâneo — o programa GLADE — se propõe a preencher. Toda a síntese aqui reunida termina apontando para o mesmo lugar: a gestrinona não carece de plausibilidade nem de sinal de eficácia; carece de um grande ensaio de qualidade que a tire do rodapé das diretrizes.
Referências
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