A gestrinona entre as progestinas androgênicas
Neste capítulo
- Contexto
- No Brasil, a gestrinona virou mito nos dois sentidos — ora "bomba" anabólica de abuso, ora milagre estético de emagrecimento. Ambas as leituras convertem em lenda um fármaco ginecológico de nicho: mais uma progestina derivada da 19-nortestosterona, usada há quatro décadas na dor da endometriose.
- Objetivo
- Situar a molécula onde ela pertence — dentro da classe das progestinas androgênicas, ao lado de noretisterona, linestrenol e levonorgestrel e em contraste com a antiandrogênica dienogeste — combatendo a desinformação com a farmacologia de classe.
- Achados
- O eixo é a equivalência de eficácia: a ESHRE 2022 reconhece a gestrinona como o único antiprogestogênio avaliado e "terapia eficaz", igual às demais progestinas, com a ressalva de escassez de dados (Becker et al., 2022). Se a eficácia empata, a decisão migra para o perfil de efeitos, tolerabilidade e valores da paciente. A assinatura da gestrinona é androgênica — acne (OR 1,58) e seborreia (OR 3,11) a distinguem —, o HDL despenca (−32 a −44%) e a SHBG colapsa (~55→7 nmol/L), mas o osso é poupado, ao contrário do GnRH.
- Conclusão
- A gestrinona é uma progestina androgênica legítima, funcionalmente oposta à dienogeste dentro do mesmo tronco 19-nor. Ainda assim, está ausente das oito grandes taxonomias de progestinas (2008–2025) — a "progestina esquecida". A escolha entre ela e suas pares é uma decisão compartilhada guiada pelo fenótipo, não uma disputa de eficácia.
= GnRH
No Brasil, a gestrinona ganhou o apelido de "bomba" — ora tratada como esteroide anabólico de abuso, ora vendida como milagre estético que emagrece e revigora. As duas leituras erram na mesma direção: convertem um fármaco ginecológico em mito. A gestrinona (etinilnorgestrienona, o antigo R-2323) não é nem abuso anabólico nem milagre estético — é mais uma progestina derivada da 19-nortestosterona, com indicação ginecológica legítima, sobretudo a dor associada à endometriose, onde é usada há quatro décadas na Europa e no Brasil (Nemestran).
O retrato do uso desviado tem dado nacional. No único levantamento dedicado ao implante estético, dos 30 respondentes, 63,3% relataram efeitos adversos, 76,7% desconheciam os riscos e 80% acharam que "valeu a pena" — a fotografia de uma banalização que decide sem informar (Clébicar Barbosa et al., 2026). Este capítulo combate a desinformação nos dois flancos com a única ferramenta que a desfaz: a farmacologia de classe, situando a molécula ao lado de suas pares.
O fio condutor é a equivalência de eficácia. A diretriz ESHRE 2022, apoiada na revisão Cochrane de 2012, registra a gestrinona como o único antiprogestogênio avaliado e conclui, textualmente, que "tanto os progestágenos contínuos quanto a gestrinona contínua são terapias eficazes para o tratamento dos sintomas dolorosos associados à endometriose. Não houve evidência global de benefício de um progestágeno oral sobre outro. Contudo, esta conclusão deve ser tratada com cautela pela escassez de dados e ausência de estudos controlados por placebo" (Becker et al., 2022). A própria Cochrane reforça: "não houve evidência de benefício dos antiprogestágenos (gestrinona) comparados ao danazol" (Brown et al., 2012), achado repetido em 2017 ao reagrupá-la entre os moduladores do receptor de progesterona (Fu et al., 2017).
A consequência lógica é direta: se a eficácia é semelhante entre progestinas, a escolha se decide pelo perfil de efeitos colaterais, pela tolerabilidade e pelos valores da paciente. Essa é a tese central de Pinto da Costa Viana & Jacobsen 2025, que separa o "evento adverso" — o registro objetivo de um desfecho — da "tolerabilidade" — a capacidade subjetiva de conviver com o efeito sem abandonar o tratamento (Pinto Viana & Jacobsen, 2025).
Há, por fim, o achado que dá título ao capítulo: a gestrinona está ausente das taxonomias modernas de progestinas. Nenhuma das oito grandes revisões de classe lidas — Schindler 2008, Kuhl 2011, Vigo 2011, Prior 2015, Shoupe 2023, García-Sáenz 2023, Stanczyk 2024 e Żyła 2025 — a nomeia nas tabelas de receptor, dose ou classificação. Ela aparece apenas desenhada, como fórmula estrutural, na Fig. 2 de Schindler, ao lado do levonorgestrel e do gestodeno (Schindler et al., 2008). É a "progestina androgênica esquecida" — e esse silêncio é, em si, um argumento do capítulo, retomado ao final.
A família das progestinas androgênicas nasce de uma única cirurgia molecular sobre a testosterona: retirar o grupo metil da posição C19. Essa remoção multiplica em cerca de dez vezes a afinidade pelo receptor de progesterona e cria a linhagem dos 19-nortestosterona, subdividida em estranos etinilados (noretisterona, linestrenol, tibolona) e gonanos (levonorgestrel, gestodeno, desogestrel). O grupo etinil em C17α desloca o perfil do polo androgênico para o progestacional, sem apagar de todo a androgenicidade residual — daí o nome da classe (Kuhl, 2011)(García-Sáenz et al., 2023).
A gestrinona pertence a esse tronco sem ambiguidade: é uma 19-nortestosterona etinilada, um Δ4,9,11-trieno com um grupo 13-etil, parente estrutural direta da norgestrienona. Schindler a desenha na sua Fig. 2 lado a lado com o levonorgestrel e o gestodeno; Kuhl desenha a norgestrienona, sua prima, na Fig. 3. Estruturalmente, portanto, a gestrinona é vizinha do levonorgestrel — o gonano androgênico de segunda geração (Schindler et al., 2008)(Kuhl, 2011).
O contraste que organiza todo o capítulo é com o dienogeste. Ele também deriva da 19-nortestosterona, mas é a exceção da família: não é etinilado (traz um grupo cianometil em C17 e uma dupla ligação C9–C10) e, ao contrário de todas as suas pares, é antiandrogênico — atinge cerca de 30 a 40% da atividade antiandrogênica do acetato de ciproterona (García-Sáenz et al., 2023). O par gestrinona × dienogeste é, assim, o eixo retórico da seção: dois derivados do mesmo tronco molecular que apontam para lados opostos do espectro androgênico.
A gestrinona é promíscua no receptor. Ela liga o receptor de progesterona como agonista parcial e, simultaneamente, como antiprogestacional — a maior afinidade entre trinta antiprogestinas testadas por Verma & Laumas (RBA ao PR humano ≈ 41,5), o que justifica a ESHRE classificá-la como "o único antiprogestogênio" (Verma & Laumas, 1981). Liga o receptor androgênico com afinidade alta, mas de dissociação rápida — o traço que a torna androgênica na clínica (Raynaud & Ojasoo, 1986). Liga fortemente o receptor glicocorticoide (RBA ≈ 235) e o mineralocorticoide. E, curiosamente, não liga o receptor de estrogênio clássico no humano — o componente estrogênico só aparece "mascarado" em rato (Snyder et al., 1989) — e ainda assim é clinicamente antiestrogênica, por uma via não-competitiva sobre sítios nucleares do tipo II (Ohno et al., 1991).
Colocada ao lado das pares, a lógica da família se revela: noretisterona e linestrenol são as únicas com atividade estrogênica e androgênica simultâneas; os gonanos como o levonorgestrel são androgênicos sem estrogenicidade; a tibolona é a mais androgênica da classe; e a dienogeste é a exceção antiandrogênica. A tabela abaixo resume o espectro qualitativo — a única forma honesta de comparar moléculas cujos números de afinidade foram medidos em escalas diferentes (ver a Nota metodológica logo adiante).
| Molécula | Progest. | Antigonad. | Estrog. | Antiestrog. | Androg. | Antiandrog. | Glicocort. | (Anti)mineralo. |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Gestrinona | + (parcial; também antiprogestacional) | ± | 0 (humano) | + (tipo II) | + (dissoc. rápida) | − | + (RBA 235) | liga MR |
| Danazol | ± | + | 0 (humano) | + | + | − | + | ? |
| Noretisterona / NETA | + | + | + | + | + | − | − | − |
| Linestrenol | + | + | + | + | + | − | − | − |
| Levonorgestrel | + | + | − | + | + | − | − | + |
| Dienogeste | + | + | ± | ± | − | + | − | − |
| Tibolona (contexto) | ± | + | + | + | ++ | − | − | − |
| MPA (contexto) | + | + | − | + | ± | − | + | − |
O danazol (17α-etiniltestosterona, isoxazol) e a gestrinona não figuram nas taxonomias de progestinas; suas linhas são qualitativas, a partir de Shaw (1994), Raynaud & Ojasoo (1986) e Snyder et al. (1989), e não são diretamente comparáveis célula a célula com as das progestinas de referência.
Por que espectro qualitativo, e não RBA numérico
Os números de afinidade receptorial (RBA) das progestinas não são diretamente comparáveis entre as fontes, por três motivos que obrigam ao espectro qualitativo:
1. Referências (100%) diferentes para o mesmo receptor. Nas tabelas-mestre de Schindler e Kuhl, o receptor androgênico usa metribolona (R1881) = 100%; já a tabela de RBA da própria gestrinona usa testosterona = 100% (Raynaud & Ojasoo, 1986). Um "AR = 45" do levonorgestrel (base R1881) e o "AR alto" da gestrinona (base testosterona) não estão na mesma escala e não podem ser postos lado a lado.
2. Cinética de dissociação. A gestrinona é caso extremo: o RBA ao AR é alto no início e despenca com o tempo (dissociação rápida do Δ4,9,11-trieno). Um valor pontual não captura isso — e o próprio Kuhl adverte que "os valores são inconsistentes... não refletem necessariamente a eficácia biológica" (Kuhl, 2011).
3. Ausência das tabelas de classe. Como nenhuma das oito revisões inclui a gestrinona, não existe RBA dela medido na mesma escala dos comparadores. Consequência prática: a Tabela 2A usa apenas +/−/0; RBA numérico só deve ser citado dentro da mesma fonte, nunca cruzando Raynaud com Schindler.
Do receptor à clínica: a tabela a seguir traduz o espectro em dose, eficácia, sangramento, efeitos androgênicos, metabolismo, osso, tolerabilidade e status regulatório. É onde a semelhança de eficácia e a diferença de perfil ficam visíveis na mesma linha.
| Molécula | Precursor / dose | Eficácia (endometriose) | Sangramento | EA androgênicos | SHBG · HDL | Osso | Tolerabilidade | Regulatório |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Gestrinona | 19-nor etinilada (Δ4,9,11, 13-etil); 2,5 mg 2×/sem, oral; biodisp. ~30%; t½ ~28 h | = danazol e = leuprolida; eficaz na dor (ESHRE ⊕⊕○○) | Amenorreia dose-dependente; spotting 25–30% = subdosagem; mais irregular que danazol | Acne + seborreia = assinatura (OR 1,58 / 3,11); hirsutismo dose-dep.; voz rara | SHBG ~55→7; HDL ↓32–44% (HDL₂ até −75%); CT/TG estáveis; reversível | Poupado/neutro — não perde (via androgênica) | 0/83 descontinuações (Halbe); EA androgênicos = principal barreira | Aprovada Europa/Brasil; ausente da ESHRE 2022; Anvisa Lista C5 |
| Danazol | 17α-etiniltestosterona (isoxazol); 400–800 mg/dia | = GnRH e = gestrinona; atrofia endometrial mais rápida | Amenorreia (~75% a 800 mg); menos irregular que gestrinona | Acne, hirsutismo, voz (pode ser irreversível), peso | SHBG ↓ (53→4,7); HDL ↓, LDL ↑ | Poupado (via androgênica) | Pior tolerado (descontinuação ~9,5% vs 1% do GnRH) | Em desuso; ESHRE 2022 não recomenda |
| NET / NETA | 19-nor estrano etinilado (1ª ger.); NETA 5 mg/dia | Recomendada; usada como add-back de GnRH | Bom; usada em sangramento uterino agudo | Androgênica, menos que 2ª geração | ↓SHBG; atenua HDL | Protege como add-back | Geralmente boa; sangramento irregular | Amplamente aprovada |
| Linestrenol | 19-nor estrano; pró-fármaco → NET; 5 mg/dia | Usado; único comparador que perdeu para leuprolida (Jeng) | Sem dado dedicado | Perfil da NET (converte); sem dado quantitativo | Sem dado (assume perfil NET) | Sem dado | Sem dado dedicado | Aprovado em alguns países |
| Levonorgestrel | 19-nor gonano (2ª ger.); vizinho estrutural da gestrinona; LNG-IUS 52 mg | LNG-IUS 1ª linha ESHRE (forte, ⊕⊕⊕○); lidera recorrência | LNG-IUS ↓80–90%; amenorreia ~40% | Oral: "strong androgenic"; local minimiza sistêmico | Oral ↓SHBG ~50%, ↓HDL; local atenua | LNG-IUS sem perda | LNG-IUS bem tolerado (ação local) | Amplamente aprovado |
| Dienogeste (contraponto) | 19-nor não-etinilada (4ª ger.); único 19-nor antiandrogênico; 2 mg/dia | Alta; = leuprolida; supera a gestrinona em recorrência/gravidez | Spotting = causa frequente de descontinuação | Mínimos; antiandrogênico → melhora acne | Não liga SHBG; ↑HDL ~18% | Neutro (sem perda) | Boa, mas alterações de humor / depressão | 1ª linha global; presente nas taxonomias |
| MPA (contexto) | Pregnano (derivado da progesterona, não 19-nor); 10–30 mg; DMPA 150 mg | Recomendada; = outros progestágenos | Bom; sangramento inicial prolongado | Androgênico fraco; sem hirsutismo marcado | Pode ↓HDL; age via glicocorticoide | ↓ DMO (DMPA) | Sangramento e ganho de peso | Amplamente aprovado |
Fontes por célula ao longo do texto: gestrinona — Halbe et al. (1995), Fedele et al. (1990), Shaw (1994), Dowsett et al. (1986), Worthington et al. (1993); comparadores — Shoupe (2023), García-Sáenz et al. (2023), Jeng et al. (2014), Zheng et al. (2023), Becker et al. (2022). A amenorreia dose-dependente da gestrinona (todas amenorreicas a 5 mg/semana, menos da metade a 2,5 mg 2×/sem) foi caracterizada por Hipkin (1992).
A âncora é a ESHRE 2022, citada por inteiro na §1: progestágenos contínuos e gestrinona contínua são igualmente eficazes, "sem evidência global de benefício de um progestágeno oral sobre outro", com ressalva de escassez de dados (Becker et al., 2022). Sobre essa base empilham-se as evidências comparativas. As duas revisões Cochrane não encontram diferença entre a gestrinona e o danazol (Brown et al., 2012)(Fu et al., 2017). O ensaio multicêntrico italiano de 1996 (Gestrinone Italian Study Group) igualou a gestrinona à leuprolida no controle da dor — equivalência confirmada nas sínteses posteriores (Jeng et al., 2014). E o RCT brasileiro de Halbe, com 164 mulheres, mostrou eficácia sobreposta à do danazol (Halbe et al., 1995), com Fedele registrando apenas que o danazol atrofia o endométrio mais rápido (Fedele et al., 1995). A única meta-análise dedicada resume o veredito: a gestrinona "parece segura e pode ter algumas vantagens de eficácia sobre o danazol" (Pinto et al., 2023).
A honestidade da tese exige a ressalva simétrica: equivalência não é superioridade, e a evidência é frágil. Não há RCT de gestrinona contra placebo na dor da endometriose; a certeza GRADE é baixa a muito baixa; os ensaios são pequenos, antigos e majoritariamente de via oral. Mais: quando o desfecho é a recorrência pós-cirúrgica, a gestrinona fica atrás das referências modernas — na meta-análise em rede de Zheng, o dienogeste a supera em recorrência (OR 0,40) e em gravidez (OR 2,60), e ela recidiva mais que o LNG-IUS (OR 2,22) (Zheng et al., 2023). A gestrinona é eficaz e equivalente na dor; não é a líder dos rankings de recorrência. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
"Não houve evidência global de benefício de um progestágeno oral sobre outro" — a frase da ESHRE 2022 é o pivô do capítulo: se a eficácia empata, a escolha se decide no perfil de efeitos.
ESHRE 2022 · Becker et al.Como a eficácia empata, a decisão migra para o perfil de efeitos — e é aqui que as progestinas se separam. A assinatura da gestrinona é androgênica e estética. Na meta-análise dedicada, dos sete eventos adversos analisados, apenas dois diferem significativamente dos comparadores, e ambos são androgênicos: acne (OR 1,58; IC95% 1,06–2,36) e seborreia (OR 3,11; IC95% 1,95–4,93), ambos com heterogeneidade nula e certeza GRADE moderada (Pinto et al., 2023). O RCT de Halbe já apontava para o mesmo lado: mais acne que o danazol (escore 1,40 vs 0,98; p=0,001) e mais sangramento irregular (p=0,033) (Halbe et al., 1995).
O metabólico que o painel básico esconde
O efeito androgênico tem tradução bioquímica dramática. A SHBG colapsa — de cerca de 55 para 7 nmol/L em quatro semanas (Dowsett et al., 1986)(Forbes & Thomas, 1993) — e o HDL despenca de 32 a 44%, com a fração HDL₂ caindo até 73–75% (Worthington et al., 1993)(Venturini et al., 1989). O detalhe clínico crucial: como o colesterol total e os triglicérides permanecem estáveis ou até caem, o painel lipídico básico subestima o efeito — só o fracionamento revela o dano. Tudo é reversível com a suspensão. A queda da SHBG, por sua vez, descobre testosterona livre (elevação de ~1,9× em algumas séries, inalterada em outras) — a base bioquímica da acne e da seborreia (Forbes & Thomas, 1993).
A vantagem óssea
No esqueleto, o sinal se inverte a favor da gestrinona. A mesma androgenicidade que penaliza a pele protege o osso: ao contrário do agonista de GnRH, que consome mais de 6% da densidade lombar em seis meses e exige add-back, a gestrinona poupa ou até ganha massa óssea. Devogelaer registrou variação de 0% na gestrinona contra −2,4% do GnRH (Devogelaer et al., 1993); Worthington confirmou densidade preservada nas duas doses (Worthington et al., 1993); Dawood mediu, por TC quantitativa, +7,1% no osso trabecular com 2,5 mg contra −7,1% com a dose baixa de 1,25 mg (Dawood et al., 1997); e a síntese de Jeng documentou ganho lombar de +0,88% a +2,06% contra a perda da leuprolida (Jeng et al., 2014). A revisão Cochrane de densidade óssea agrupa a gestrinona ao danazol como protetores contra a perda induzida pelo GnRH (Sagsveen et al., 2003).
É aqui que a distinção conceitual de Pinto Viana & Jacobsen ganha corpo: evento adverso não é o mesmo que intolerabilidade. A acne é um evento objetivo, mensurável; a decisão de abandonar o tratamento por causa dela é a tolerabilidade — subjetiva, dependente do fenótipo e dos valores da paciente. E a tolerabilidade real da gestrinona é boa quando a androgenicidade não é um problema: no RCT de Halbe houve zero descontinuações em 83 usuárias, contra o abandono expressivo do danazol (Halbe et al., 1995); a adesão agregada ronda 89% (Pinto et al., 2023). Os efeitos androgênicos são a principal barreira de adesão — mas só pesam para quem os valoriza como intoleráveis (Pinto Viana & Jacobsen, 2025). No uso estético fora de indicação, aliás, a mesma androgenicidade produz desfechos como a clitoromegalia relatada no survey nacional (Clébicar Barbosa et al., 2026).
Se a eficácia empata e o que separa as progestinas é o perfil de efeitos, a decisão terapêutica deixa de ser "qual é a melhor?" e passa a ser "qual é a certa para esta paciente?". É a lógica da decisão compartilhada (shared decision-making): não existe progestina superior em abstrato; existe a progestina alinhada ao fenótipo e às prioridades de cada mulher (Pinto Viana & Jacobsen, 2025).
Escolha por fenótipo — quando a gestrinona é a certa (e quando não é)
Adolescentes e jovens (poupar osso): preferir gestrinona ou dienogeste, que preservam a massa óssea; evitar o agonista de GnRH como primeira linha, pelo custo esquelético na janela de pico de massa óssea.
Má tolerância prévia: a gestrinona é opção quando o problema anterior foi humor ou sangramento com a dienogeste — troca-se o perfil de efeitos, não a eficácia.
Preservação de fertilidade: favorece agentes de retorno ovulatório rápido; pesar o desejo reprodutivo de curto prazo.
Sensibilidade a efeitos cosméticos: quem valoriza pele e cabelo e não tolera acne/seborreia deve preferir o agonista de GnRH ou a dienogeste à gestrinona — é exatamente o fenótipo em que a androgenicidade vira intolerabilidade.
Adaptado do Box 1 de Pinto Viana & Jacobsen (2025).
A mensagem prática fecha o arco da tese: a equivalência de eficácia não é um empate estéril — é o que libera a decisão para o que importa à paciente. A gestrinona brilha em quem precisa poupar osso e não se incomoda com pele oleosa; perde para a dienogeste em quem prioriza pele limpa ou já teve boa resposta antiandrogênica. Nenhuma é "a bomba"; cada uma é uma ferramenta com um perfil.
Resta explicar o silêncio que dá título ao capítulo. Percorridas as oito grandes revisões de classe de 2008 a 2025 — Schindler (2008), Kuhl (2011), Vigo (2011), Prior (2015), Shoupe (2023), García-Sáenz (2023), Stanczyk (2024) e Żyła (2025) — a gestrinona não é nomeada em nenhuma tabela de receptor, dose ou classificação. Aparece só desenhada, como fórmula, na Fig. 2 de Schindler (Schindler et al., 2008). Nem mesmo Żyła 2025, que cobre estranos, gonanos e endometriose de forma exaustiva, a cita — apesar de a gestrinona ser um fármaco de endometriose por excelência (Żyła et al., 2025).
As causas são convergentes. É um fármaco de nicho: indicação restrita (dor da endometriose), mercado limitado à Europa e ao Brasil, ausente dos EUA — e revisões escritas por grupos majoritariamente norte-americanos ou europeus tendem a orbitar o que está disponível em seus mercados. É um fármaco de evidência antiga: a massa dos ensaios data dos anos 1980–90, o que a exclui das sínteses focadas em moléculas contemporâneas. E foi ativamente rebaixada: a própria ESHRE 2022 decidiu que "não é mais relevante incluir os antiprogestogênios nas recomendações" — o mesmo destino do danazol —, mantendo-a apenas no corpo do texto, não entre as 109 recomendações formais (Becker et al., 2022).
O arco se fecha com uma ironia. A "progestina androgênica esquecida" reaparece hoje pela porta errada — a do uso estético fora de indicação que a converte de novo em mito, agora sob promessa de emagrecimento e vigor (Clébicar Barbosa et al., 2026). Reintroduzi-la pela porta certa — a farmacologia de classe, ao lado de suas pares 19-nortestosterona, com sua eficácia equivalente e seu perfil androgênico bem documentado — é o serviço deste capítulo. A gestrinona não é uma bomba nem um milagre: é uma progestina, e merece ser lida como tal.
Referências
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