Gestrinona
Revisão de evidência científica
Dr. Leonardo Jacobsen · 2026
Gestrinona/Indicações/Outras indicações
GestrinonaRevisãoIndicações além da endometriose

Outras indicações clínicas: miomas, menorragia, mama benigna e contracepção

Atualizado 2026Versão 2.0~26 min de leitura15 referências
Nesta revisão
Resumo estruturado
Contexto
Antes de se firmar na endometriose, a gestrinona foi testada num arco amplo de indicações ginecológicas — miomas, sangramento uterino aumentado, doença benigna da mama e contracepção. Boa parte dessa evidência é histórica (anos 1979–2010) e concentrada no grupo de Coutinho, mas inclui ensaios controlados por placebo e o maior ECR já feito com a molécula.
Objetivo
Reconstruir, a partir das fontes primárias, o que a gestrinona demonstrou fora da endometriose — regressão de miomas e seu mecanismo molecular, controle da menorragia, tratamento da mama benigna e uso contraceptivo — e mostrar como todas essas ações se organizam sob um mesmo princípio: o gradiente dose/regime.
Achados
Na miomatose, a gestrinona reduz o volume uterino de modo dose-dependente (úteros gigantes >1000 cm³ caíram, em média, de 1753 para 1201 cm³ em seis meses), com amenorreia em ~95% aos quatro meses e preservação de ~50% do estrogênio basal — sem menopausa artificial. O efeito é citostático (regulação da atividade de ERα/c-Src/p38, sem apoptose relevante), o que explica a necessidade de 6–12 meses de tratamento. Na menorragia, o único ECR placebo-controlado (hematina alcalina) reduziu a perda em 15/19 mulheres. Na mastalgia cíclica, um RCT duplo-cego mostrou queda da dor de ~80% vs. 37% no placebo. Na contracepção de emergência, uma dose única foi estatisticamente equivalente à mifepristona (n=998).
Conclusão
A gestrinona tem eficácia demonstrada num leque de condições estrogênio/progesterona-dependentes, mas quase sempre em estudos pequenos, antigos e de um só grupo — o que a mantém, nessas indicações, como opção de segunda linha e território de reposicionamento, não de prática consolidada.
miomas uterinosvolume uterinoc-Src / p38 MAPKmenorragiamastalgia cíclicadoença fibrocísticacontracepção de emergênciagradiente dose/regime
−551 cm³
Úteros gigantes >1000 cm³: 1753 → 1201 cm³ em 6 meses (Coutinho)
15/19
Menorragia: redução objetiva da perda vs. placebo inerte (Turnbull & Rees)
80% vs 37%
Queda da dor mamária: gestrinona vs. placebo (Peters, p<0,0001)
2,4% vs 1,8%
Gravidez na contracepção de emergência: gestrinona vs. mifepristona (p=0,51)
1.Miomas uterinos: a regressão do volume

A história da gestrinona nos miomas começa por acaso. Ao usar o esteroide para suprimir sangramento excessivo em pré-menopáusicas, Coutinho notou que, entre 16 mulheres miomatosas tornadas amenorreicas, as massas palpáveis regrediam — o que sugeria inibição do crescimento tumoral (Coutinho, 1981). O caso-índice foi radical: uma jovem de 18 anos, infértil, com mioma de ~15 cm e histerectomia já recomendada, tratada por 18 meses viu o tumor cair a cerca de um terço do tamanho e engravidou de gêmeos num "útero antes condenado" (Coutinho, 1981).

A partir dessa observação, o grupo montou uma série de ensaios ao longo da década de 1980, somando mais de 300 mulheres (Coutinho, 1989a). O primeiro RCT de três braços (n=97) já trazia o padrão que se repetiria: aos quatro meses, os grupos orais reduziram o volume uterino (5 mg 2×/sem: 303 → 251 cm³; 2,5 mg 3×/sem: 361 → 266 cm³), enquanto o grupo vaginal na mesma dose baixa (2,5 mg 3×/sem) não regrediu — na verdade subiu (371 → 387 cm³), diferença significativa (p=0,047) (Coutinho et al., 1986). Os próprios autores concluíram que os níveis séricos obtidos pela via vaginal, embora bastassem para inibir a ovulação e a menstruação, eram insuficientes para saturar os receptores miometriais — e que o braço vaginal se tornara, "de fato, um grupo-controle" (Coutinho et al., 1986).

Oral vs. vaginal: a lição da dose

Por que dobrar a dose vaginal inverteu o resultado

Em 1986, a via vaginal a 2,5 mg gerava cerca de um terço dos níveis séricos da via oral e falhava em encolher o útero (Coutinho et al., 1986). No ensaio de dois anos, ao dobrar a dose vaginal para 5 mg 3×/sem, o quadro se inverteu: o grupo vaginal passou a ser o mais eficaz, com reduções significativas em todos os intervalos (6 meses p=0,001; 12 meses p=0,001; 24 meses p=0,001) e 100% das pacientes abaixo do basal após a suspensão (Coutinho & Gonçalves, 1989b). A moral não é sobre a via, e sim sobre a exposição sistêmica: a regressão do mioma segue o nível sérico, não a rota de administração — e a vantagem de "menos acne" antes atribuída à via vaginal também desapareceu quando as doses se igualaram.

O achado numérico mais forte veio do tratamento de miomas grandes com dose alta (5 mg 3×/sem, o dobro do recomendado). Numa série de 24 mulheres com úteros de 218,7 a 2.920 cm³, o volume médio caiu de 724,9 para 450,73 cm³ em seis meses (p=0,007); nas 14 seguidas por um ano completo, a queda continuou no segundo semestre, chegando a 329,23 cm³ (6 meses vs. 1 ano, p=0,004) (Coutinho, 1990). Entre os seis úteros gigantes (>1000 cm³, faixa 1159–2920 cm³), a média despencou de 1753 para 1201 cm³ — uma redução de 551 cm³ em seis meses (Coutinho, 1989a). A Figura 1 traduz essa cinética.

0200400600 Volume uterino (cm³) 689,7 Admissão 428,5 6 meses 329,2 1 ano Dose alta (5 mg 3×/sem), n=14 tratadas por 1 ano · redução contínua no 2º semestre (p=0,004) · Coutinho, 1990
Figura 1. Regressão do volume uterino sob gestrinona em dose alta (5 mg três vezes por semana), nas 14 pacientes seguidas por um ano completo: 689,7 → 428,5 (6 meses) → 329,2 cm³ (1 ano). A maior queda ocorre no primeiro semestre, mas a redução prossegue no segundo — um efeito lento, compatível com ação citostática. Esquema a partir de Coutinho, 1990.

Dois traços clínicos acompanham essa regressão. O primeiro é a supressão do sangramento: a amenorreia instala-se rápido — cerca de 52% antes de dois meses e ~95% aos quatro meses (Coutinho et al., 1986) — e corrige a anemia associada (a hemoglobina subiu em 85 de 90 mulheres com dados disponíveis, de 12,38 para 13,16 g) (Coutinho et al., 1986). O segundo é a ausência de menopausa artificial: a gestrinona suprime apenas o pico de LH, mas permite secreção moderada de gonadotrofinas, suficiente para sustentar cerca de 50% da secreção basal de estrogênio — de modo que há anovulação, amenorreia e baixo estrogênio "no receptor" sem que os níveis de esteroides caiam ao ponto de produzir fogachos ou perda óssea (Coutinho, 1989a). É o contraste explícito com os agonistas de GnRH, que reduzem o útero em 52–77% mas às custas de hipoestrogenismo (Coutinho & Gonçalves, 1989b).

A gestrinona suprime o pico de LH mas preserva ~50% do estrogênio basal — encolhe o mioma e para o sangramento sem impor a menopausa química dos agonistas de GnRH.

A partir de Coutinho, 1989a

É preciso, porém, calibrar o entusiasmo. Revisões independentes de benefício-risco lembram que a eficácia da gestrinona nos miomas "só foi demonstrada em poucos estudos limitados a pequenos números de mulheres" e que ela "não tem vantagem quando comparada ao danazol" (De Leo et al., 2002) — ainda que a durabilidade seja um ponto a favor: 89% das tratadas por um ano mantiveram o útero menor por pelo menos 18 meses após parar, sem efeito adverso sobre a densidade óssea (De Leo et al., 2002).

2.Mecanismo no leiomioma: ERα, c-Src e p38

Por que o encolhimento é tão lento — exigindo 6 a 12 meses? A resposta molecular veio de um par de estudos de Zhu e colaboradores, o primeiro a ligar a quinase c-Src ao leiomioma. No modelo de mioma induzido por estradiol em cobaia, a proteína c-Src e, sobretudo, sua forma autofosforilada em Tyr416 (a forma ativa) estavam muito elevadas no tecido tumoral — o phospho-416Src subiu para ~3× o controle (2,595 vs. 0,883 por Western blot) — e a gestrinona reverteu essa ativação, ao mesmo tempo em que reduziu a expressão de ER e PR (Zhu et al., 2007). Como a simples castração baixava c-Src mas não reduzia ER/PR, a queda dos receptores era efeito da droga, não da mera privação ovariana (Zhu et al., 2007).

O segundo estudo transportou o achado para células de leiomioma humano em cultura primária. A gestrinona inibiu o crescimento de modo concentração- e tempo-dependente, com um traço decisivo: aos 60 h, o IC50 era menor no leiomioma (15,25 µmol/L) do que no miométrio normal (25,46 µmol/L) — sinal de seletividade tumoral, que ajuda a explicar por que o tecido são é relativamente poupado no tratamento prolongado (Zhu et al., 2012). No plano da sinalização, a droga reduziu a expressão e a ativação do ERα (queda de phospho-Ser167-ERα), abateu a atividade do Src (↓ phospho-Tyr416) e ativou a via supressora p38 MAPK (↑ pp38/p38) (Zhu et al., 2012).

O ponto mais importante para a clínica é negativo: nas concentrações relevantes (0,1–3,0 µmol/L), a gestrinona não induziu apoptose significativa — a inibição do crescimento era essencialmente citostática, por regulação de ERα/Src/p38, e não por morte celular (Zhu et al., 2012). Os autores são explícitos: "esta pode ser uma das razões pelas quais a administração de longo prazo da gestrinona é necessária para reduzir o volume do leiomioma" (Zhu et al., 2012). Um tratamento que trava a proliferação, mas não mata a célula, encolhe o tumor devagar — exatamente o que a Figura 1 mostra clinicamente.

Figura 7
ERα e phospho-Ser167-ERα em células de leiomioma uterino tratadas com gestrinona: Western blot e gráficos concentração-dependentes
Figura 8
c-Src, phospho-Tyr416-Src e phospho-Tyr527-Src em células de leiomioma uterino tratadas com gestrinona
Figura 2. Efeito da gestrinona sobre a via ERα/Src em células de leiomioma uterino em cultura. O ERα e o phospho-Ser167-ERα caem de forma concentração-dependente (Figura 7), enquanto o c-Src total aumenta, mas o phospho-Tyr416-Src (a forma ativa) diminui (Figura 8) — ou seja, a gestrinona reduz a atividade do Src sem reduzir seu nível total, funcionando "muito mais como regulador da atividade do que como inibidor do Src". Peça central do argumento citostático. (Zhu et al., 2012)

Uma honestidade metodológica merece registro: os dois estudos divergem quanto ao Src total (que cai in vivo na cobaia, mas sobe in vitro nas células humanas) — discrepância que os próprios autores atribuem aos diferentes sistemas experimentais e doses. O consenso é a queda da atividade (Tyr416), não do nível total (Zhu et al., 2012).

3.Menorragia: o único ensaio com medida objetiva

Fora do grupo de Coutinho e com rigor metodológico distinto, o estudo de Turnbull & Rees (Oxford) é a melhor evidência da gestrinona no sangramento menstrual aumentado. Trata-se do único ensaio placebo-controlado com medida objetiva da perda sanguínea menstrual (MBL) pela técnica da hematina alcalina — o padrão-ouro (Turnbull & Rees, 1990). O desenho já ensina uma lição de diagnóstico: das 37 mulheres encaminhadas por "menorragia" autorreferida, apenas 20 (54%) tinham de fato MBL >80 mL — uma perdia só 14 mL (Turnbull & Rees, 1990).

Nas 19 que entraram (gestrinona 2,5 mg 2×/sem, esquema de dois ciclos placebo + três ativos), o resultado foi nítido: o placebo não teve efeito algum sobre a MBL, enquanto a gestrinona a reduziu significativamente em 15 das 19 mulheres (p<0,01), com amenorreia em 10 delas às 12 semanas (Turnbull & Rees, 1990). Um achado curioso e não explicado: no primeiro ciclo ativo, a MBL aumentou paradoxalmente (mediana 213 mL) apesar de poucas cápsulas tomadas (Turnbull & Rees, 1990). E um achado esclarecedor sobre as não-respondedoras: das quatro que não responderam e foram à histerectomia, três tinham leiomiomas submucosos não suspeitados, cuja produção de prostaciclina poderia explicar a resistência (Turnbull & Rees, 1990). Notavelmente, nesse regime de dose mínima, nenhuma paciente ficou hirsuta ou teve alteração de voz, e o ganho de peso médio de 2 kg se perdeu em três meses após parar (Turnbull & Rees, 1990).

A revisão de benefício-risco de Roy & Bhattacharya situa esse resultado no conjunto dos fármacos para menorragia: a gestrinona é "um derivado sintético da 19-nortestosterona cujo efeito na menorragia é semelhante ao do danazol", agindo no eixo hipotálamo-hipófise para produzir anovulação, amenorreia e atrofia endometrial; no único ECR, "reduziu a perda menstrual intensa em 15 pacientes (79%), enquanto o placebo não teve efeito" (Roy & Bhattacharya, 2004). A mesma revisão a posiciona com franqueza: no Reino Unido, a gestrinona é licenciada apenas para endometriose, é "cinco vezes mais cara que o danazol", e — como o danazol — é classificada pelo RCOG como segunda linha, atrás dos antifibrinolíticos, do sistema intrauterino de levonorgestrel e dos AINEs (Roy & Bhattacharya, 2004).

4.Mama benigna: doença fibrocística e mastalgia

A lógica antiestrogênica levou a gestrinona à mama. Na doença fibrocística, uma série aberta de 28 mulheres (5 mg 2×/sem, 3–9 meses) obteve eliminação completa da nodularidade em 12/28 já aos três meses — todas com nódulos pequenos de 1–2 cm — e resposta parcial (redução >50%) nas de massas maiores; a dor e a sensibilidade desapareceram nas duas primeiras semanas na maioria dos casos (Coutinho & Azadian-Boulanger, 1984). O preço androgênico já aparecia: acne e seborreia em 70% das pacientes, com ganho de peso de 2–5 kg — todos reversíveis, e o tamanho da mama plenamente restaurado após a suspensão (Coutinho & Azadian-Boulanger, 1984).

A evidência definitiva na mama, contudo, é o RCT duplo-cego multicêntrico de Peters na mastalgia cíclica (n=145; gestrinona 2,5 mg 2×/sem vs. placebo, 3 meses) (Peters, 1992). A dor, medida em escala visual analógica, caiu de forma acentuada e crescente: aos três meses, 59,5 → 11,7 mm com gestrinona vs. 58,2 → 36,7 mm com placebo — uma redução média de ~80% vs. 37% (p<0,0001) (Peters, 1992). Todos os sete sintomas mamários secundários melhoraram significativamente, e 89% das pacientes e 84% dos investigadores classificaram o efeito como excelente/bom (vs. 25% e 19% no placebo) (Peters, 1992).

Tabela 1. Perfil endócrino sob gestrinona 2,5 mg 2×/sem por 3 meses, no subgrupo dosado (n=15) do RCT de mastalgia. Colhido na fase lútea; RIA. No placebo, nenhum hormônio variou significativamente. Adaptado de Peters, 1992. Números verbatim. ns = não significativo.
HormônioBasal3 mesesP
FSH (µmol/L)0,210,16ns
LH (µmol/L)0,460,39ns
Prolactina (µg/L)13,414,8ns
Estradiol (pmol/L)2911600,01
Progesterona (nmol/L)363,50,001
TSH (mU/L)6,86,6ns
T4 (nmol/L)8991ns
T3 (nmol/L)1,81,30,01

A Tabela 1 é o retrato endócrino canônico da gestrinona em mulheres eumenorreicas. O padrão é inequívoco: queda de estradiol (291 → 160 pmol/L) e de progesterona (36 → 3,5 nmol/L) com FSH, LH e prolactina inalterados — ou seja, a droga inibe o surto ovulatório de gonadotrofinas, mantendo-as em nível basal, e o resultado é anovulação com menor esteroidogênese ovariana (Peters, 1992). A leve queda de T3, com TSH e T4 normais, é atribuída à inibição androgênica da síntese de TBG (a globulina ligadora de tiroxina) — o mesmo fenômeno do danazol — e não indica hipotireoidismo (Peters, 1992). Peters propõe pelo menos três sítios de ação na mastalgia: hipófise (bloqueio do surto), ovário (↓ esteroidogênese) e a própria glândula mamária, onde a droga "mascara" o receptor de estrogênio — possivelmente o sítio mais importante (Peters, 1992). O custo androgênico persiste (41% de eventos adversos vs. 14% no placebo, predominantemente pele oleosa, hirsutismo, acne), mas com uma vantagem prática: a dose é muito menor que a do danazol (5 mg vs. 1400–4200 mg por semana) e há efeito contraceptivo associado (Peters, 1992).

5.Contracepção: do regime semanal à emergência

A gestrinona (R2323) nasceu, nos anos 1970, como candidata a contraceptivo — e é nesse território que o gradiente dose/regime fica mais visível. No estudo pioneiro de David e colaboradores (Universidade da Pensilvânia), 5 mg orais uma vez por semana em 26 mulheres produziram nenhuma gravidez em 138 ciclos — mas com um dado revelador: a biópsia endometrial mostrou endométrio secretor (isto é, ovulação) em 8/26 (31%) após 12 semanas (David et al., 1979). A supressão central era, portanto, parcial e variável, e a proteção não vinha só de bloquear a ovulação. Coerente com isso, o efeito ovulatório mostrou-se dose-relacionado: paradoxalmente, mais mulheres ovulavam na dose menor (~80% a 2,5 mg vs. ~60% a 5,0 mg semanais, em séries anteriores) (David et al., 1979). O sangramento intermenstrual (81%, em geral spotting leve) era a principal limitação de tolerabilidade, ao lado da assinatura androgênica clássica (acne 27%, ganho de peso 27%) (David et al., 1979).

Reduzir ainda mais a exposição — a uma dose única — muda o mecanismo por completo. No estudo mecanístico de Gao, cada mulher sendo seu próprio controle, uma dose única de 5 mg no período peri-ovulatório não alterou o desenvolvimento folicular, a ovulação, o comprimento do ciclo nem os níveis de estradiol e progesterona (Gao et al., 2007). O que ela fez foi reduzir a expressão do receptor de progesterona no endométrio e modular integrinas ligadas à janela de implantação — de modo que o efeito de contracepção de emergência decorreria de inibição da implantação, e não da ovulação (Gao et al., 2007). Ao contrário da mifepristona, que atrasa a menstruação em 18–36% dos casos, a gestrinona em dose única não alterava o padrão menstrual — atraente para quem teme a angústia da menstruação atrasada após a emergência (Gao et al., 2007).

A confirmação clínica veio no maior ensaio já realizado com a molécula: um RCT duplo-cego de 998 mulheres comparando gestrinona 10 mg em dose única com mifepristona 10 mg como contracepção de emergência (Wu et al., 2010). Os resultados foram estatisticamente equivalentes: gravidez em 2,4% (gestrinona) vs. 1,8% (mifepristona), p=0,51, com efetividade (fração prevenida) de 68% vs. 76% (Wu et al., 2010). Os eventos adversos foram raros e sem diferença entre os grupos — nenhum sinal androgênico agudo relevante —, com sangramento/spotting como queixa mais comum em ambos (~15%) (Wu et al., 2010). A única diferença de padrão: a gestrinona adiantava a menstruação (7,1% menstruaram >7 dias antes vs. 2,6% com mifepristona, p<0,001), enquanto a mifepristona a atrasava (Wu et al., 2010). As limitações são reais — um só país (China), sem braço de levonorgestrel — mas a força da amostra sustenta a equivalência (Wu et al., 2010).

6.O fio condutor: gradiente dose/regime

Reunidas, essas indicações revelam um princípio único que costura todas as demais revisões: os efeitos sistêmicos da gestrinona — supressão do eixo e androgenização — são fenômeno de exposição cumulativa, não de dose pontual. É o mesmo fármaco atuando em três regimes distintos, com três assinaturas distintas.

No regime crônico (2×/sem por meses), a droga inibe a ovulação, derruba estradiol e progesterona e imprime a androgenização — foi assim na mastalgia (E2 291 → 160; P 36 → 3,5) (Peters, 1992) e é assim nos miomas, onde a exposição prolongada é justamente o que o mecanismo citostático exige (Zhu et al., 2012). No regime semanal, a supressão central é apenas parcial (31% ainda ovulam) (David et al., 1979). E na dose única, não há supressão do eixo nem queda de E2/P — a ação migra inteiramente para o endométrio (↓PR, anti-implantação) (Gao et al., 2007), e a tolerabilidade aguda é excelente, indistinguível da mifepristona (Wu et al., 2010).

A consequência prática é direta: os efeitos androgênicos que assombram o uso estético e o tratamento prolongado não são propriedade da molécula em si, mas da exposição acumulada. Uma dose pontual não androgeniza; um regime de meses, sim. Esse mesmo gradiente aparece na própria miomatose — a regressão do volume segue o nível sérico (via oral ou vaginal com dose dobrada), enquanto uma exposição sistêmica baixa demais bloqueia a menstruação mas não encolhe o tumor (Coutinho et al., 1986). Dose e regime, não a via nem a substância isolada, governam tanto o benefício quanto o dano.

Três regimes, três assinaturas

O mesmo fármaco, doses diferentes, efeitos qualitativamente distintos

Crônico (2×/sem): inibe ovulação → ↓E2, ↓P; supressão do eixo + androgenização (acne/seborreia na maioria; ↓T3 por ↓TBG). Base de miomas, mastalgia e endometriose.

Semanal (5 mg 1×/sem): supressão parcial — ~31% ainda ovulam; proteção contraceptiva incompleta e dependente de dose. Perfil androgênico ainda presente (acne, ganho de peso).

Dose única (5–10 mg): não inibe ovulação nem baixa E2/P; age no endométrio (↓PR, anti-implantação). Muito bem tolerada, sem sinal androgênico agudo.

7.Síntese

Fora da endometriose, a gestrinona tem um currículo real, porém desigual. Nos miomas, reduz o volume de modo dose-dependente e durável, controla o sangramento e poupa o osso — mas a evidência é antiga, quase toda de um só grupo e sem placebo verdadeiro, e revisões independentes não lhe conferem vantagem sobre o danazol. Na menorragia, tem a favor o único ECR com medida objetiva (15/19), porém pequeno e de segunda linha. Na mama, exibe seu melhor documento — um RCT duplo-cego com queda de dor de ~80% — ao lado do retrato endócrino mais limpo de sua ação em eumenorreicas. E na contracepção de emergência, tem o maior ensaio já feito (n=998), mostrando equivalência à mifepristona.

A Tabela 2 resume o panorama. O denominador comum é o gradiente dose/regime — e a lição de que, nessas indicações, a gestrinona permanece uma opção de segunda linha e um campo de reposicionamento, mais do que uma prática consolidada.

Tabela 2. Resumo das indicações da gestrinona fora da endometriose: achado-chave, nível de evidência e fonte principal.
IndicaçãoAchado-chaveNível de evidênciaFonte
Miomas uterinosRedução dose-dependente do volume (gigantes: 1753 → 1201 cm³ em 6 m); amenorreia ~95%; osso poupadoSéries e ensaios sem placebo (um grupo)Coutinho 1986; 1989a; 1990
Mecanismo no leiomioma↓ ERα/atividade de Src (Tyr416); ↑ p38; efeito citostático (sem apoptose) → tratamento longoPré-clínico (cobaia + células humanas)Zhu 2007; Zhu 2012
Menorragia↓ perda menstrual objetiva em 15/19 (79%); placebo inerte; 3 não-respondedoras = mioma submucosoECR placebo-controlado (n=19)Turnbull & Rees 1990; Roy 2004
Mama benigna / mastalgiaDor ↓80% vs. 37% placebo (p<0,0001); E2 291→160, P 36→3,5; nodularidade eliminada 12/28RCT duplo-cego (n=145) + série (n=28)Peters 1992; Coutinho 1984
Contracepção (regime)0 gravidez/138 ciclos (semanal), mas 31% ainda ovulam; supressão parcial dose-dependenteSérie aberta (n=26)David 1979
Contracepção de emergênciaDose única = anti-implantação (↓PR); gravidez 2,4% vs. 1,8% mifepristona (p=0,51)Mecanístico (n=15) + RCT (n=998)Gao 2007; Wu 2010

Referências

Ordenadas por autor · clique na citação no texto para chegar aqui

  • Coutinho EM. (1981). Conservative treatment of uterine leiomyoma with the antiestrogen antiprogesterone R-2323. Int J Gynaecol Obstet. 19(5):357–360. PubMed·DOI
  • Coutinho EM, Azadian-Boulanger G. (1984). Treatment of fibrocystic disease of the breast with gestrinone, a new trienic synthetic steroid with anti-estrogen, anti-progesterone properties. Int J Gynaecol Obstet. 22(5):363–366. PubMed·DOI
  • Coutinho EM, Azadian-Boulanger G, Gonçalves MT. (1986). Regression of uterine leiomyomas after treatment with gestrinone, an antiestrogen, antiprogesterone. Am J Obstet Gynecol. 155(4):761–767. PubMed·DOI
  • Coutinho EM. (1989a). Gestrinone in the treatment of myomas. Acta Obstet Gynecol Scand Suppl. 150:39–46. PubMed·DOI
  • Coutinho EM, Gonçalves MT. (1989b). Long-term treatment of leiomyomas with gestrinone. Fertil Steril. 51(6):939–946. PubMed·DOI
  • Coutinho EM. (1990). Treatment of large fibroids with high doses of gestrinone. Gynecol Obstet Invest. 30(1):44–47. PubMed
  • David SS, Huggins GR, Garcia CR, Busacca C. (1979). A synthetic steroid (R2323) as a once-a-week oral contraceptive. Fertil Steril. 31(3):278–281. PubMed
  • De Leo V, Morgante G, La Marca A, et al. (2002). A benefit-risk assessment of medical treatment for uterine leiomyomas. Drug Saf. 25(11):759–779. PubMed·DOI
  • Gao X, Wu E, Chen G. (2007). Mechanism of emergency contraception with gestrinone: a preliminary investigation. Contraception. 76(3):221–227. PubMed·DOI
  • Peters F. (1992). Multicentre study of gestrinone in cyclical breast pain. Lancet. 339(8787):205–208. PubMed·DOI
  • Roy SN, Bhattacharya S. (2004). Benefits and risks of pharmacological agents used for the treatment of menorrhagia. Drug Saf. 27(2):75–90. PubMed·DOI
  • Turnbull AC, Rees MCP. (1990). Gestrinone in the treatment of menorrhagia. Br J Obstet Gynaecol. 97(8):713–715. PubMed
  • Wu S, Dong J, Cong J, Wang C, VonHertzen H, Godfrey EM. (2010). Gestrinone compared with mifepristone for emergency contraception: a randomized controlled trial. Obstet Gynecol. 115(4):740–744. PubMed·DOI
  • Zhu Y, Qiu XY, Wang L, et al. (2007). Effects of gestrinone on uterine leiomyoma and expression of c-Src in a guinea pig model. Acta Pharmacol Sin. 28(5):685–694. PubMed·DOI
  • Zhu Y, Zhang T, Xie S, et al. (2012). Gestrinone inhibits growth of human uterine leiomyoma may relate to activity regulation of ERα, Src and P38 MAPK. Biomed Pharmacother. 66(8):569–577. PubMed·DOI
Nota
Revisão pessoal de evidência elaborada por Dr. Leonardo Jacobsen para fins educacionais e de consulta. Não é uma publicação revisada por pares. Boa parte da evidência da gestrinona fora da endometriose é histórica (1979–2010), com estudos pequenos, sem placebo verdadeiro e concentrados no grupo de Coutinho — exceções são o ECR de mastalgia (Peters 1992, duplo-cego), o de menorragia (Turnbull & Rees 1990, placebo-controlado com medida objetiva) e o de contracepção de emergência (Wu et al. 2010, n=998). As afirmações remetem às fontes primárias citadas; verifique os artigos originais no PubMed antes de qualquer aplicação clínica. Conteúdo científico compilado a partir de literatura indexada no PubMed.