Efeitos endócrino-metabólicos e o paradoxo androgênico
Nesta revisão
- Contexto
- Sendo um esteroide androgênico derivado da 19-nortestosterona, a gestrinona carrega uma pegada endócrino-metabólica própria, documentada em oito estudos humanos entre 1978 e 1997 — coortes de endometriose, ensaios randomizados de duas doses e um trabalho mecanístico.
- Objetivo
- Reconstruir, a partir das fontes primárias, a assinatura lipídica androgênica, o comportamento da SHBG e da testosterona (o "paradoxo androgênico"), os efeitos glicêmico e tireoidiano, e a densidade mineral óssea.
- Achados
- O HDL-colesterol despenca (−25 a −41%, com a subfração HDL₂ −56 a −75%) e as razões aterogênicas explodem (+72 a +417%), enquanto colesterol total e triglicérides ficam estáveis ou até caem — o par mais medido na prática subestima o dano. A SHBG colapsa (de ~55 para ~7 nmol/L em quatro semanas) e a testosterona total cai, mas a fração livre — motor da androgenicidade — sobe de forma heterogênea (×1,9 em Forbes/Venturini; inalterada em Dawood). Glicemia e insulina sem sinal adverso; T4 livre inalterada; densidade óssea geralmente preservada, com divergência dose-dependente por TC quantitativa (+7,1% com 2,5 mg vs −7,1% com 1,25 mg). Tudo reversível em 1–6 meses.
- Conclusão
- A gestrinona imprime um perfil lipídico potencialmente aterogênico concentrado nas frações do HDL, com poupança óssea e sem disglicemia — um androgênio "mais limpo" que o danazol, mas cujo monitoramento exige dosar frações e SHBG, não apenas colesterol total e triglicérides.
Toda a discussão metabólica da gestrinona repousa sobre um acervo pequeno e antigo, mas notavelmente coerente: oito estudos humanos, quase todos em mulheres com endometriose, que medem lipídios, hormônios sexuais, glicemia e osso sob a mesma faixa posológica — 1,25 a 2,5 mg por via oral, duas vezes por semana.
Os desenhos vão da coorte pré/pós com autocontrole a ensaios randomizados duplo-cego de duas doses, passando por um estudo mecanístico que dissseca a bioquímica da SHBG in vitro e in vivo. Convergem em dois eixos-síntese que atravessam o capítulo. O primeiro é a assinatura lipídica androgênica: o HDL-colesterol desaba (sobretudo a subfração HDL₂), o LDL e a apoB sobem e as razões aterogênicas explodem — mas o colesterol total e os triglicérides, o par mais medido na prática, ficam estáveis ou até caem. O segundo é o paradoxo androgênico: a globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG) colapsa em todos os estudos in vivo, a testosterona total cai, e a fração livre — a que carrega a androgenicidade — sobe de forma heterogênea. A Tabela 1 mapeia o lote.
| Estudo | Desenho | n | Dose / via | O que mede de único |
|---|---|---|---|---|
| Spellacy 1978 | Coorte pré/pós (autocontrole) | 21 | 5 mg oral 1×/sem, 6 m | Único dado glicêmico/insulínico humano (TTGO 3 h) |
| Dowsett 1986 | RCT duplo-cego + in vitro | 14 | 5 mg/sem (2×2,5) vs danazol | Mecanismo SHBG / % T livre; competição por metabólitos |
| Venturini 1989 | Coorte aberta (autocontrole) | 11 | 2,5 mg 2×/sem, 6 m | Lipoproteínas por ultracentrifugação + apolipoproteínas |
| Worthington 1993 | RCT duplo-cego, duas doses | 20 | 1,25 vs 2,5 mg 2×/sem, 6 m | Frações HDL₂/HDL₃ + DMO por duplo fóton |
| Kauppila 1993 | Revisão narrativa | — | revisa a classe | Posicionamento comparativo (danazol/MPA/GnRH) |
| Forbes 1993 | Coorte aberta comparativa | 28 | 2,5 mg 2×/sem vs danazol, 24 sem | Painel andrógeno completo (TT/FT/A/DHAS/SHBG) |
| Yang 1996 | Aberto (só abstract inglês) | 20 | 2,5 mg 2×/sem, 6 m | HDL/LDL + CA-125 + DMO |
| Dawood 1997 | RCT duplo-cego, duas doses | 11 | 1,25 vs 2,5 mg 2×/sem, 24 sem | DMO trabecular por qCT; SHBG + T livre + T4 livre |
O achado metabólico mais forte e mais replicado do acervo é uma dislipidemia de padrão androgênico, típica dos 19-nor esteroides. A referência canônica é o ensaio randomizado duplo-cego de Worthington e colaboradores, que comparou 1,25 e 2,5 mg em 20 mulheres com endometriose e mediu lipídios e apolipoproteínas em jejum aos 0, 2, 4, 6 e 12 meses (Worthington et al., 1993). O resultado é inequívoco: o HDL-colesterol despencou cerca de 40% em ambas as doses (P<0,05), com a subfração HDL₂ devastada — de −56% a −75% — e a apoA-I caindo cerca de 30%. O LDL subiu de forma transitória (significativa apenas no 2º mês com 2,5 mg, +27%) e todas as razões aterogênicas dispararam (LDL:HDL, LDL:HDL₂ e apoB:apoA-I; P<0,05). A Tabela 2 detalha essa trajetória.
| Analito | Basal | Mês 2 (%) | Mês 4 (%) | Mês 6 (%) | Mês 12 (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| HDL-C (mmol/L) | 1,7 | −33* | −44* | −44* | −3 |
| HDL₂-C | 0,4 | −72* | −75* | −73* | +13 |
| HDL₃-C | 1,2 | −36* | −36* | −39* | −10 |
| LDL-C | 3,4 | +27* | +17 | +20 | −12 |
| Colesterol total | 5,0 | +6 | −2 | −7 | −8 |
| Triglicérides | 0,8 | −19 | −17 | +18 | +4 |
| apoA-I (g/L) | 1,47 | −27 | −30 | −32 | 0 |
| LDL:HDL | 2,0 | +113* | +124* | +109* | +2 |
| LDL:HDL₂ | 8,5 | +417* | +308* | +331* | −40 |
O ponto crucial da tabela é a dissociação entre o que despenca e o que se mede na rotina. Enquanto o HDL e as razões colapsam, o colesterol total e os triglicérides praticamente não se movem — o colesterol total até cai levemente e os triglicérides oscilam sem significância. A Figura 1 traduz visualmente esse divórcio entre a subfração devastada e o LDL que sobe.
Essa assinatura não é peculiaridade de um estudo — replica-se de população em população. Venturini e colaboradores, usando ultracentrifugação e imunodifusão de apolipoproteínas em 11 mulheres, observaram uma queda de HDL-colesterol de ~32%, com LDL e apoB subindo e apoA-I caindo; mas registraram um diferencial distintivo: os triglicérides e o VLDL também caíram — traço ausente no danazol e atribuído à ação antiestrogênica da gestrinona, que inibe a síntese hepática de VLDL (Venturini et al., 1989). Nas palavras dos autores, o HDL caiu 32% com a gestrinona contra 50 a 60% relatados com danazol a 600–800 mg/dia; ainda assim, classificaram as alterações como "aterogênicas e que exigem cuidado e controle estrito". Yang e colaboradores, numa coorte asiática de 20 mulheres, confirmaram o padrão: queda significativa do HDL (P<0,05), aumento moderado do LDL (não significativo) e apenas elevações leves e não significativas de triglicérides e colesterol total (Yang et al., 1996). A Tabela 3 consolida as frações estudo a estudo.
| Estudo | HDL-C | LDL / apoB | TG / col. total | Frações medidas? |
|---|---|---|---|---|
| Venturini 1989 | ↓ ~32% | LDL↑, apoB↑, apoA-I↓ | TG↓, VLDL↓ (antiestrogênico) | Sim (ultracentrifugação) |
| Worthington 1993 | ↓ ~40% (HDL₂ −56 a −75%) | LDL↑ transit., apoB↑ transit. | TG estável; col. total levemente↓ | Sim (HDL₂/HDL₃) |
| Yang 1996 | ↓ significativo (P<0,05) | LDL↑ (NS) | TG↑ e col. total↑ leves (NS) | Parcial (abstract) |
| Dawood 1997 | sem efeito consistente | sem efeito consistente | 2,5 mg col. total↓; 1,25 mg TG↓ | Sim (col/HDL/LDL/TG) |
| Spellacy 1978 | não medido | não medido | col. total e TG estáveis (NS) | Não |
Fecha o argumento a reversibilidade. Em Worthington, todas as alterações lipídicas — inclusive as razões triplicadas — voltaram ao basal seis meses após a suspensão (coluna "Mês 12" da Tabela 2); em Venturini, um mês pós-suspensão bastou para o retorno, exceto pelo LDL-colesterol, que permaneceu elevado e elevou o colesterol total ao fim do estudo. O dano lipídico da gestrinona, portanto, é de curso limitado e reversível — o que tranquiliza sobre esquemas curtos, mas não dispensa monitoramento.


Aqui está a questão mais fina do capítulo. A gestrinona é um esteroide androgênico — produz acne, pele oleosa e virilização — e, no entanto, quando se dosam os andrógenos, a testosterona total cai. A resolução do aparente paradoxo está na proteína transportadora. A pedra angular bioquímica é o estudo mecanístico de Dowsett e colaboradores, que mediu a capacidade de ligação da SHBG in vivo e in vitro (Dowsett et al., 1986). In vivo, a SHBG colapsou de 56,4 nmol/L para 28,1 na primeira semana e para 7,1 nmol/L na quarta — uma queda de quase 90% em um mês (Figura 3), semelhante à do danazol.
A queda da SHBG tem duas consequências encadeadas. A primeira: com menos proteína transportadora, uma fração maior da testosterona circula livre — e é a testosterona livre, não a total, que ativa o receptor androgênico. A segunda, mais sutil, resolve o paradoxo: como Dowsett previu, o aumento da fração livre eleva a taxa de depuração metabólica da testosterona, o que faz a concentração total cair (a menos que a secreção aumente). Assim, um esteroide androgênico convive com testosterona total baixa. A demonstração in vivo mais nítida vem de Forbes e Thomas, cujo painel andrógeno completo é reproduzido na Tabela 4 (Forbes & Thomas, 1993).
| Analito | Pré | Mês 2 | Mês 5 |
|---|---|---|---|
| SHBG (nmol/L) | 54,5 ± 5,0 | 8,6 ± 1,4* | 7,9 ± 1,7 |
| Testosterona total (nmol/L) | 2,75 ± 0,34 | 2,00 ± 0,37 | 1,79 ± 0,21 |
| Testosterona livre calculada (pmol/L) | 63,8 ± 12,1 | 114,9 ± 20,0* | 108,3 ± 13,1 |
| Androstenediona (nmol/L) | 5,39 ± 0,46 | 4,24 ± 0,42 | 3,91 ± 0,53* |
| E₂ (pmol/L) | 201 ± 48 | 79 ± 7 | 172 ± 63 |
A leitura da tabela é a "frase de ouro" do paradoxo: a SHBG despenca de 54,5 para 7,9 nmol/L, a testosterona total cai de 2,75 para 1,79 (P<0,02 no 5º mês), mas a testosterona livre quase dobra — de 63,8 para 114,9 pmol/L, um fator de 1,9. E o correlato clínico está presente: dez das quinze mulheres relataram ao menos um efeito androgênico, contra cinco das doze do braço danazol. Venturini havia observado o mesmo sentido — testosterona total ↓ (P<0,001), SHBG ↓ (P<0,001) e fração livre ↑ progressiva (P<0,001 no 6º mês), com retorno completo ao basal um mês após a suspensão (Venturini et al., 1989).
A honestidade da revisão exige, porém, registrar a discordância. Dawood e colaboradores, num ensaio randomizado de duas doses, viram a SHBG cair até seis vezes — mas a testosterona livre não se alterou com nenhuma das doses (Dawood et al., 1997). Não é contradição inexplicável: alinha-se exatamente à previsão in vitro de Dowsett, de que na dose terapêutica a gestrinona desloca menos de 10% da testosterona ligada à SHBG. A Tabela 5 organiza os quatro estudos.
| Estudo | SHBG | Testosterona total | Testosterona livre |
|---|---|---|---|
| Dowsett 1986 | 56,4 → 7,1 nmol/L (4 sem) | ↓ (predita, via ↑ depuração) | ↑ (desloca <10% da T ligada) |
| Venturini 1989 | ↓ P<0,001 | ↓ P<0,001 | ↑ progressiva (P<0,001 no 6º mês) |
| Forbes 1993 | 54,5 → 7,9 nmol/L | 2,75 → 1,79 nmol/L | 63,8 → 114,9 pmol/L (×1,9) |
| Dawood 1997 | ↓ 3× (1,25 mg) / 6× (2,5 mg) | não relatada | inalterada |
Por que um androgênio "abaixa" a testosterona total
A cadeia causal tem três camadas. Primeira — a SHBG colapsa. Em todos os estudos in vivo, a capacidade de ligação da SHBG cai de ~55 para ~7 nmol/L em quatro semanas, de forma dose-dependente (3× com 1,25 mg, 6× com 2,5 mg em Dawood). A gestrinona faz isso apenas por supressão da síntese da SHBG, sem a competição por sítios que caracteriza os metabólitos do danazol — a etisterona —, o que a torna um androgênio mais "limpo" no eixo da SHBG.
Segunda — a testosterona total cai. Com menos SHBG, a fração livre aumenta; a maior disponibilidade eleva a depuração metabólica da testosterona, e a concentração total diminui (Dowsett; confirmado por Venturini e Forbes). O androgênio, paradoxalmente, reduz o total que se mede.
Terceira — a fração livre é heterogênea. É ela que carrega a androgenicidade, mas sua resposta varia: quase dobra em Forbes/Venturini (×1,9) e permanece inalterada em Dawood — coerente com o deslocamento de menos de 10% da testosterona ligada previsto por Dowsett. Ninguém dosou di-hidrotestosterona. Na prática: a testosterona total é um marcador enganoso; para avaliar a carga androgênica da gestrinona é preciso dosar SHBG e testosterona livre.


Um último traço endócrino merece nota, porque separa a gestrinona dos agonistas de GnRH: ela não é antigonadotrófica clássica. As gonadotrofinas basais (FSH, LH) permanecem inalteradas em Forbes e Venturini; o que a gestrinona suprime é o pico ovulatório e a frequência de pulsos de LH — que caiu de 4,66 para 1,66 pulsos por 6 horas em Venturini —, mantendo estradiol e progesterona na faixa folicular baixa (anovulação por luteinização de folículos não-rotos).
Os 19-nor esteroides androgênicos têm fama de piorar o metabolismo dos carboidratos — a noretindrona e o norgestrel alteram a tolerância à glicose. A gestrinona é a exceção documentada, e o único dado humano vem de Spellacy e colaboradores, que aplicaram um teste de tolerância oral à glicose de 3 horas (carga de 75 g), com dosagens de glicose e insulina em cinco tempos, antes e após seis meses de tratamento em 21 mulheres eumenorreicas (Spellacy et al., 1978). O resultado é essencialmente nulo (Tabela 6): a insulina não mudou em nenhum tempo, e a glicemia só teve um ponto significativo — a glicose de 3 horas, que caiu de 70,0 para 58,7 mg/dL (P<0,05). As duas mulheres com curva "borderline" no início reverteram para o padrão "normal".
| Tempo | Glicose controle (mg/dL) | Glicose 6 m | Insulina controle (µU/mL) | Insulina 6 m |
|---|---|---|---|---|
| Jejum | 77,6 | 70,4 | 16,8 | 20,7 |
| 1 h | 94,6 | 105,3 | 89,8 | 102,9 |
| 2 h | 79,8 | 83,1 | 77,7 | 84,7 |
| 3 h | 70,0 | 58,7 (P<0,05) | 45,5 | 46,4 |
O colesterol total (157,6 → 155,4 mg/dL) e os triglicérides (71,6 → 77,7) também ficaram estáveis — coerente com a ideia de que, medindo apenas esse par, não se enxerga a dislipidemia das frações. Os próprios autores atribuíram a ausência de disglicemia aos níveis sanguíneos mais baixos do esteroide no esquema semanal, e lembraram o contraste de via e dose: Diaz relatara que 1 de 5 mulheres com implante de silastic de R-2323 desenvolveu intolerância à glicose, reversível ao remover o implante. Na via e dose orais estudadas, contudo, o sinal é claro: sem disglicemia — um contraponto útil ao danazol, que piora a resistência insulínica.
O dado tireoidiano é escasso, mas não ausente. Dawood e colaboradores incluíram a tiroxina livre (T4 livre) em seu painel hormonal semanal e concluíram, textualmente, que "nem a tiroxina livre nem a testosterona livre mudaram significativamente durante o tratamento com gestrinona" (Dawood et al., 1997). Ou seja: apesar do colapso da SHBG — que poderia, em tese, arrastar consigo outras globulinas ligadoras —, a fração livre do hormônio tireoidiano permaneceu estável nas duas doses. É um achado tranquilizador, ainda que baseado em amostra pequena (n=11), e sugere que o impacto da gestrinona sobre as proteínas transportadoras não se generaliza indiscriminadamente à globulina ligadora de tiroxina. Nenhum outro estudo do acervo mediu função tireoidiana, de modo que a T4 livre inalterada de Dawood é, por ora, a única referência humana.
O osso é o compartimento em que a gestrinona ganha vantagem sobre os agonistas de GnRH. Ao induzir hipoestrogenismo relativo, qualquer supressor do eixo ameaça a massa óssea; mas o componente androgênico da gestrinona parece contrabalançar essa perda. Na medida por absorciometria de duplo fóton de Worthington — coluna L2–L4 e três sítios do fêmur proximal —, nenhuma das doses causou perda significativa de DMO em coluna ou fêmur ao longo de 6 e 12 meses (Worthington et al., 1993). Os autores foram explícitos: "os efeitos androgênicos da gestrinona foram suficientes para prevenir a perda de densidade óssea" que normalmente acompanharia a queda estrogênica. Yang confirmou o achado numa coorte independente — sem diferença significativa na densidade de coluna ou colo femoral em 6 meses (Yang et al., 1996).
O único sinal de divergência veio do método mais sensível ao osso trabecular. Dawood mediu a densidade trabecular vertebral (T12–L4) por tomografia computadorizada quantitativa (qCT) e encontrou um comportamento dose-dependente notável (Figura 5): a dose de 2,5 mg produziu ganho de +7,1% ao fim de 6 meses (P=0,05), enquanto a de 1,25 mg produziu perda de −7,1% (P<0,05) — com diferença entre doses de P=0,02 (Dawood et al., 1997). Seis meses após a suspensão, o padrão persistia (2,5 mg ainda +4,6% vs 1,25 mg −5,5%), e o osso cortical do antebraço (fóton único) não se moveu em nenhuma dose.
Como conciliar os dois métodos? O duplo fóton (Worthington) mede osso integral e mostra preservação nas duas doses; o qCT (Dawood) isola o trabecular, mais metabolicamente ativo, e revela a divergência dose-dependente. Dawood propôs um "limiar de dose" para conservar o osso — 2,5 mg conserva ou ganha, 1,25 mg perde — e levantou uma hipótese elegante para o ganho: como o estradiol se mantém na faixa folicular enquanto a SHBG cai, o estradiol livre provavelmente sobe (mais com 2,5 mg), o que explicaria o efeito anabólico por via estrogênica, não androgênica. A ressalva importa: a divergência baseia-se em apenas 5 vs 6 pacientes. Ainda assim, o pano de fundo é claro — a gestrinona, ao contrário dos agonistas de GnRH, não sacrifica o osso.
Um leitor que consulte a literatura de revisão pode se deparar com uma afirmação surpreendente. A revisão de classe de Kauppila posiciona corretamente a gestrinona — "o danazol é um esteroide de efeitos androgênicos e anabólicos que afeta adversamente o metabolismo lipídico; a gestrinona e as progestinas 17-OH são mais fracas nesses aspectos" — mas, ao detalhar a gestrinona, escreve que "nenhuma alteração no metabolismo lipídico ou na função hepática foi observada" (Kauppila, 1993). A afirmação parece contradizer frontalmente Worthington (HDL −40%), Venturini (HDL −32%) e Yang (HDL ↓ significativo).
A contradição é aparente, e sua dissolução é um dos ensinamentos práticos deste capítulo. A alegação de Kauppila repousa exclusivamente sobre uma única fonte (Fedele, 1989), e o motivo da discrepância é metodológico: estudos que dosam apenas colesterol total e função hepática concluem "sem alteração", porque esses parâmetros de fato não se movem; estudos que fracionam o HDL enxergam a subfração despencar. É o exemplo canônico de que o instrumento de medida determina a conclusão.
Por que o par colesterol total + triglicérides subestima o dano
A dislipidemia da gestrinona não está no colesterol total nem nos triglicérides — está no HDL e, sobretudo, na subfração HDL₂. Spellacy mediu só o par de rotina e não achou nada (colesterol 157→155, TG 72→78; ambos NS). Dawood, com n pequeno, viu o colesterol total até cair com 2,5 mg e os triglicérides caírem com 1,25 mg. Venturini registrou triglicérides e VLDL em queda (ação antiestrogênica). Em todos, se o médico olhasse apenas colesterol total e triglicérides, concluiria "perfil normal".
Mas os estudos que fracionaram — Worthington (HDL₂ −73%), Venturini (HDL −32%), Yang (HDL ↓ P<0,05) — revelam razões aterogênicas que triplicam ou quadruplicam. A lição operacional é direta: para monitorar a segurança lipídica da gestrinona é indispensável dosar HDL e LDL (idealmente frações), não apenas colesterol total e triglicérides. Um perfil de rotina "tranquilizador" pode ocultar um HDL despencando.
Vale ainda o contexto comparativo que Kauppila oferece, este sim consensual: a dose total semanal da gestrinona (2,5–5 mg) é ínfima diante dos ~4.200 mg semanais do danazol, o que explica a menor carga hepática; e, no eixo ósseo, gestrinona e danazol preservam o osso enquanto os agonistas de GnRH o perdem. A gestrinona ocupa, assim, uma posição intermediária — androgenicidade e impacto lipídico reais, porém mais brandos que os do danazol, sem o hipoestrogenismo ósseo dos análogos de GnRH.
Reunindo as peças, emerge um retrato metabólico coerente. A gestrinona imprime uma assinatura lipídica androgênica — HDL-colesterol −25 a −41% (HDL₂ devastado, −56 a −75%), LDL/apoB em alta e razões aterogênicas +72 a +417% —, mas concentrada nas frações: o colesterol total e os triglicérides ficam estáveis ou até caem, de modo que o par de rotina subestima o dano. Tudo reversível em 1 a 6 meses.
No eixo androgênico, o paradoxo: a SHBG colapsa (~55 → ~7 nmol/L em quatro semanas), a testosterona total cai, mas a fração livre — a que importa — sobe de forma heterogênea (×1,9 em Forbes/Venturini; inalterada em Dawood, coerente com o deslocamento de <10% da testosterona ligada previsto por Dowsett). Ninguém mediu di-hidrotestosterona. O metabolismo glicídico não dá sinal adverso (Spellacy), a T4 livre não se altera (Dawood), e o osso é geralmente preservado (Worthington, Yang), com a única divergência dose-dependente por qCT (+7,1% com 2,5 mg vs −7,1% com 1,25 mg).
Para a prática, três recomendações se desprendem. Primeira: monitorar lipídios por frações (HDL, LDL), não apenas colesterol total e triglicérides — sob pena de não enxergar a dislipidemia. Segunda: avaliar a carga androgênica pela SHBG e testosterona livre, jamais pela testosterona total, que cai de forma enganosa. Terceira: tranquilizar quanto ao osso e à glicemia em cursos limitados, lembrando que a assinatura lipídica é reversível após a suspensão. A gestrinona é, em suma, um androgênio de impacto metabólico real, porém mais brando e mais reversível que o do danazol — desde que se meça o que de fato se move.
A testosterona total cai, mas a gestrinona é androgênica; o colesterol total não se move, mas o HDL despenca. Em ambos os casos, o marcador de rotina engana — é preciso medir a fração.
Síntese a partir de Dowsett 1986, Forbes 1993 e Worthington 1993Referências
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- Dawood MY, Obasiolu CW, Ramos J, Khan-Dawood FS. (1997). Clinical, endocrine, and metabolic effects of two doses of gestrinone in treatment of pelvic endometriosis. Am J Obstet Gynecol. 176(2):387–394. PubMed
- Dowsett M, Forbes KL, Rose GL, Mudge JE, Jeffcoate SL. (1986). A comparison of the effects of danazol and gestrinone on testosterone binding to sex hormone binding globulin in vitro and in vivo. Clin Endocrinol (Oxf). 24(5):555–563. PubMed·DOI
- Forbes KL, Thomas FJ. (1993). Tissue and endocrine responses to gestrinone and danazol in the treatment of endometriosis. Reprod Fertil Dev. 5(1):103–109. PubMed·DOI
- Kauppila A. (1993). Changing concepts of medical treatment of endometriosis. Acta Obstet Gynecol Scand. 72(5):324–336. PubMed·DOI
- Spellacy WN, Mahan CS, Buhi WC, Dumbaugh VA, Birk SA. (1978). Blood glucose, insulin, cholesterol and triglyceride levels in women treated for six months with the weekly oral contraceptive R2323. Contraception. 18(2):121–126. PubMed·DOI
- Venturini PL, Bertolini S, Fasce V, et al. (1989). Endocrine, metabolic, and clinical effects of gestrinone in women with endometriosis. Fertil Steril. 52(4):589–595. PubMed
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